muita potência - bastante
16 de janeiro de 2026 18:35
O Forte do Pavor foi tomado por um frio sepulcral. O inverno nortista, que não conhece misericórdia, transformou o pátio do castelo em um cemitério congelado de carvão, gelo e daquela massa que restara de Theon Massajoy. Ramsay Bolton estava na varanda, olhando para baixo, para o monte informe de terra preta, entremeado de carne morta e minhocas congeladas. Ele não estava apenas entediado — sentia um vazio. Sem o seu «animal de estimação», sem aquela fonte eterna de medo e ridículo, o Forte do Pavor parecia-lhe apenas um amontoado de pedras. Ele virou-se para os seus convidados involuntários. Melisandre, a Sacerdotisa Vermelha, estava na sombra, suas vestes carmesins pareciam uma ferida sangrenta contra a pedra cinzenta. Ao lado dela, apoiado em um pedaço de espada, paralisara Beric Dondarrion — um homem cuja própria carne era uma colcha de retalhos de cicatrizes e ressurreições.
— Vocês dizem que o seu Deus pode devolver a vida até a quem se tornou cinzas, —
a voz de Ramsay era baixa, ouvia-se o aço nela.
— Diante de mim há cinzas. Quero que ele respire de novo, fale, se envergonhe. —
Melisandre aproximou-se lentamente da beira da varanda. Seus olhos, ao que parecia, brilhavam com um calor interno próprio.
— A vida é um dom do Senhor da Luz. Mas o que jaz ali, no pátio… sua alma vaga por lugares onde não há calor, nem luz. Tens certeza, Bolton, de que queres trazê-lo de volta? — Traze-o de volta, —
cortou Ramsay.
— Senão, a fogueira hoje arderá não para o vosso deus, mas para vocês mesmos. —
Eles desceram ao pátio. O vento uivava, atiçando as chamas nos braseiros. Beric Dondarrion colocou a mão no punho de sua espada, e a lâmina brilhou com um fogo pálido. Melisandre ajoelhou-se diante do monte congelado de minhocas e podridão. Ela tocou a massa gélida com os dedos, e sua pele começou a fumegar.
— Āeksios Ōnos, īlon mērī sēnagon… —
sua voz ecoou em Alto Valiriano, profunda e autoritária.
— Zyhorys nēdys sȳz se menty rāelagon… —
Ela começou a cantar a oração que não era ouvida no Norte há séculos. As palavras caíam na neve, pesadas e quentes. Beric Dondarrion inclinou-se sobre os restos, seu fôlego escapando do peito em nuvens de vapor. Ele inspirou profundamente e pressionou seus lábios contra o que um dia fora o rosto de Theon. «O beijo da vida». O silêncio no pátio tornou-se absoluto. E então, o monte de terra estremeceu. Foi uma cena aterrorizante. A carne começou a se reunir do nada, entrelaçando-se com minhocas e lodo. A matéria borbulhava, pulsava, obedecendo à vontade do Deus Vermelho. Os carvões pretos eram absorvidos pelos músculos em formação, conferindo-lhes rigidez. Da massa de podridão começaram a brotar ossos, brancos e afiados. Após uma eternidade, da crosta estourada de gelo e lama começou a emergir uma criatura. Não era um homem no sentido habitual. Era rosado, úmido e completamente desprovido de pelos. Sua pele, fina e semitransparente como pergaminho, envolvia firmemente os novos músculos. A criatura lembrava um leitão recém-nascido — indefeso, nu e tremendo pelo frio insuportável deste mundo. Theon abriu os olhos. Eles eram límpidos, profundos e cheios de uma dor infinita. Ele inspirou profundamente o ar gelado, e seus pulmões queimaram de dor. Levantou suas novas mãos rosadas e olhou para elas. Na pele ainda se viam vestígios de terra e fios pretos de minhocas, que se tornaram parte de sua nova anatomia. Theon moveu lentamente o olhar para Ramsay, que o observava com uma curiosidade predatória. E então Theon chorou. Não foi o soluço do Fedor ou a histeria do Massajoy. Foi o choro baixo e pungente de uma criatura que foi arrancada de seu próprio paraíso.
— Por que… —
sussurrou ele, e sua voz era límpida, desprovida da rouquidão de outrora.
— Por que me trouxeste de volta para cá?! —
Ramsay aproximou-se, suas botas rangendo na neve. Ele sorriu com seu sorriso habitual e sinistro.
— Bem-vindo ao lar, Gêiser de Diarreia. O Forte do Pavor esperava por ti. —
Theon começou a tremer, abraçando-se com os braços. A pele rosa cobriu-se de arrepios.
— Lá… lá havia silêncio, —
disse ele, olhando através de Bolton.
— Lá havia o vazio cinzento, e nele eu era Rei. Ninguém me batia. Ninguém ria. Eu governava um mundo onde não havia dor, nem canos, nem macarrão. Encontrei minha paz nos céus de ninguém. Eu era grande em minha solidão… —
Ele olhou para as próprias palmas das mãos, para esse novo e vulnerável dom da vida.
— Roubaste a minha coroa, Ramsay. Arrancaste-me do lugar onde eu finalmente deixara de ser ninguém. Trouxeste-me de volta para esta lama… para quê? Para que possas ver novamente como eu me quebro? —
Theon caiu de joelhos na neve suja. Suas lágrimas deixavam trilhas nas bochechas rosadas. Nesse momento, ele realmente parecia algo nascido das cinzas e do pó — uma fênix condenada ao sofrimento eterno.
— Estou seriamente ofendido contigo, Bolton, —
pronunciou Theon, e em seus olhos brilhou uma faísca daquele mesmo e antigo Greyjoy, que não conhecia o medo.
— Cometeste o maior dos crimes. Devolveste um morto a um mundo que o odeia. Destruíste o único reino onde eu fui feliz. —
Ramsay apenas gargalhou, mas naquela gargalhada já não havia o vigor de antes. O olhar do Theon renascido, aquele reproche calmo e desprovido de loucura, por um instante fez até Bolton sentir a sombra desconfortável de algo maior do que apenas vergonha. Theon continuou sentado na neve, belo em sua deformidade, pranteando o vazio cinzento perdido, onde ele — pela única vez na vida — fora verdadeiramente um rei livre.