Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

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NC-17
Finalizado
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Que os Deuses te ajudem, Theon

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A escuridão que se seguiu após as minhocas terminarem de roer os restos da consciência de Theon no pátio de Winterfell não era silenciosa nem majestosa. Ela cheirava a metal enferrujado, cachorro molhado e àquela mesma gosma fétida em que o «Prankster Uraniano» se transformara. Theon sentia como sua alma, lembrando no formato um macarrão ressecado, separava-se lentamente daquela massa que Ramsay chutava preguiçosamente com a ponta da bota. — Será que… acabou? — sussurrou Theon, ou melhor, o que restara dele. — Sem canos? Sem ouriços carecas? — De repente, o espaço ao seu redor explodiu em respingos salgados. O ar tornou-se denso, frio e com um cheiro nítido de peixe. Theon abriu os olhos, ou o que quer que ele usasse agora para ver, e descobriu que estava com água até os joelhos em uma água gelada. Acima dele erguiam-se abóbadas feitas de ossos de monstros marinhos gigantes, e o chão estava atapetado com os crânios daqueles que «não semeavam». Ele chegara aos salões do Deus Afogado. À frente, em um trono de corais e pinças de caranguejos gigantes, sentava-se ELE. O Deus Afogado parecia imponente: barba de algas, pele da cor de um céu de tempestade e um tridente do qual emanava um brilho de pura fúria marinha. Ao redor dele banqueteavam-se os grandes heróis das Ilhas de Ferro — homens severos com machados, que bebiam eternamente cerveja forte e contavam sobre seus saques. Theon, ainda por inércia cobrindo o rosto com as mãos (hábito pós-Azkaban e do elogio à Sansa), correu miudamente em direção ao trono. Ele ainda vestia seus farrapos do além, impregnados de lodo. — Oh, grande Deus das Profundezas! — gritou Theon, tentando ensaiar uma reverência majestosa, mas em vez disso escorregou em um crânio molhado e se estatizou em uma poça de espuma do mar. — Eu sou Theon Massajoy! Eu voltei para ti! — O banquete silenciou. Centenas de olhos severos fixaram-se naquele mal-entendido. — Theon Massajoy? — a voz do Deus Afogado era como o estrondo da arrebentação. — Eu ouvi falar de ti. Tu és aquele que chamavam de «Fedor»? Aquele que amarrou um saco com o próprio intestino e soprou em canos verminosos? — Theon corou até no mundo dos mortos. — Aquilo foram… manobras táticas, meu senhor! Pranks! O Senhor ouviu falar de pranks? É a maior tendência em Porto Real agora! — Aqui não há lugar para pranks, — cortou o Deus. — Aqui bebe-se cerveja e come-se caranguejos. Senta-te e prova que restou em ti ao menos uma gota de sal. — Entregaram a Theon uma taça enorme, cheia de água salgada turva, misturada com bile de baleia. Pela tradição dos Homens de Ferro, ele deveria secá-la de um só gole. Theon agarrou a taça, fechou os olhos e começou a beber. Mas seu TEPT funcionou instantaneamente: pareceu-lhe que era aquele mesmo mercúrio das minas de Jeor Mormont. Sua garganta fechou. Em vez de beber, Theon emitiu um som parecido com o assobio de uma gaita de foles furada e, em forma de fonte, expeliu o conteúdo da taça de volta — diretamente na barba do Deus Afogado. Além disso, pelo esforço, sua alma «viajante pra-lá-e-pra-cá» falhou novamente, e Theon executou involuntariamente sua famosa dança do «Passoween», batendo os calcanhares descalços sobre os crânios sagrados e cantarolando: «Shlep-shlep, Deus salgado, põe sal no meu telhado!». O Deus Afogado limpou lentamente o rosto com a mão, da qual pendiam farrapos de alga marinha. — Tu… tu acabaste de me banhar com vômito salgado e dançaste tuc-tuc sobre as cabeças dos meus heróis? — sussurrou ele furioso. — Fora daqui! Tu não és um Greyjoy! Tu não és nem um Massajoy! Tu és a vergonha do oceano mundial! — O Deus agitou o tridente, e Theon foi arremessado para fora do Céu marinho por um potente fluxo de água. Theon voou pelo vazio até aterrissar em um monte de neve macio e profundo. Olhando ao redor, percebeu que estava em um bosque sagrado infinito e silencioso. Árvores-represeiros com rostos ensanguentados olhavam para ele de todos os lados. Eram os Céus dos Stark. Da névoa começaram a sair sombras. Eddard Stark, severo e triste, com sua cabeça cuidadosamente presa aos ombros. Robb Stark em um gibão ensanguentado. Os pequenos Rickon e Bran, embora Bran no mundo dos vivos ainda estivesse vivo, sua sombra fantasmagórica já estava presente ali devido às estranhezas do tempo. — Theon… — pronunciou Ned Stark, e aquela voz fez Theon sentir-se novamente como aquele mesmo menino que acidentalmente empurrara a Professora Hooch da escada. — Lorde Eddard! — Theon caiu de joelhos, cavando a neve. — Eu explicarei tudo! Perdão por Winterfell! Perdão pela Sansa! Eu só queria fazer um elogio, mas a Cersei com o TikTok dela… — Cale-se, — disse Robb friamente. — Nós vimos tudo. Vimos como você congelou no telhado de Forte do Pavor. Vimos sua loucura «uraniana». Você trouxe vergonha para nossa casa, mesmo quando tentou ser bom. — Mas eu trouxe um presente! — vociferou Theon, tirando das profundezas de seus farrapos fantasmagóricos aquele mesmo retrato de Brienne com barba. — Olhem! Eu desenhei um guerreiro! — Robb Stark olhou para a Brienne barbuda montada no cão-vaca. Seus lábios fantasmagóricos tremeram. Ned Stark simplesmente cobriu o rosto com a mão. — Isso… isso é a lady Brienne? — perguntou Rickon. — Por que ela parece com o meu tio Benjen após um ano cativo entre os selvagens? — É o estilo! — justificava-se Theon. — Degeneratismo artístico! Eu sou um mestre! — Nesse momento Theon sentiu que precisava se «autoexpressar» novamente. Devido ao estresse, seu TEPT o forçou a se aproximar de um represeiro e começar a contar a piada sobre o Ramsay e o calcanhar, aquela mesma que fez o dementador explodir em Azkaban. Os rostos nas árvores começaram a se contorcer. A neve ao redor de Theon tornou-se preta, como aquele carvão da Cersei. As almas dos Stark sentiram tal nível de cringe que suas formas fantasmagóricas começaram a minguar. — Vá embora, Theon, — disse Ned Stark, e em sua voz ouvia-se uma súplica indisfarçável. — Você está estragando nossa eternidade. Sua presença aqui é pior que a dos Outros. Você faz nossos represeiros chorarem não sangue, mas uma gosma rosa. Não podemos te suportar aqui. Você é muito… inconveniente. — Com um potente suspiro coletivo, os Deuses Antigos sopraram Theon para fora do Norte. Theon foi arremessado para um lugar que cheirava a masmorras e ferro velho. As paredes aqui eram revestidas de pele humana, e em vez de velas ardiam lamparinas de gordura, feitas daqueles que escondiam mal os seus impostos. Eram os Céus da Casa Bolton. Aqui era escuro e aconchegante — no sentido em que pode ser aconchegante em uma sala de tortura. Theon viu as longas sombras dos antigos lordes Bolton. Estavam sentados às mesas, esfolando diligentemente porcos fantasmagóricos. — Oh! — um dos Bolton, de rosto comprido e olhos frios, levantou uma faca. — Vejam quem nos visitou. O bicho de estimação do meu descendente — Ramsay. — Theon, decidindo que já que estava entre seus «mestres» poderia relaxar, subitamente encorajou-se. — Olá, antepassados! — gritou ele, ajustando o escorredor imaginário. — Eu sou o Massajoy! Eu sei tudo sobre o seu Ramsay! Sabem como são os pés dele? Longos como esquis! Eu tentei roubá-los ontem para me salvar da contaminação uraniana da pele! — Os Bolton entreolharam-se. — Você tentou roubar os pés do nosso herdeiro? — perguntou o velho lorde. — Isso é… ousado. Mas por que você parece um guaxinim depenado que comeu fuligem demais? — É o bronzeado! — declarou Theon orgulhosamente. — O Jaime Lannister ensinou! Eu deitei no telhado até ficar azul, e depois me descolaram com urina por toda Westeros! Foi um triunfo! — Theon começou a descrever em todas as cores como soprara no cano e como vomitara na centrífuga. Tentava fazer piadas, dava tapinhas nos ombros dos Bolton em suas capas de couro e sugeria que eles «aperfeiçoassem» seus métodos de tortura com a ajuda de arenque marinado e macarrão. Ao fim da primeira hora do relato de Theon, os severos Bolton, que por séculos se orgulharam de sua crueldade e insensibilidade, começaram a sentir náuseas. — Escute, rapaz, — disse o Bolton principal, guardando a faca. — Nós somos assassinos. Somos traidores. Somos monstros. Mas não somos… isso. O que você conta não é tortura. É algum tipo de vergonha concentrada e transcendental. Com as suas histórias, nossa pele começa a coçar até onde nem temos mais pele! — Mas eu ainda não contei sobre como eu acidentalmente insultei a Brienne! — vociferava Theon empolgado. — Ela disse que era uma mulher, e eu disse: «Mas a barba é viril!» HA-HA! — CHEGA! — rugiu o Bolton. — FORA! Até para nós você é degenerado demais! Não queremos que em nossa eternidade soe a palavra «Massajoy»! Suma para o nada! — E com um chute potente de uma perna fantasmagórica em forma de salsicha, Theon foi arremessado para fora do último inferno disponível. Theon voou através de uma névoa cinzenta, onde não havia deuses, nem demônios, nem pessoas. Caiu por muito tempo, até aterrissar em uma superfície sólida e absolutamente plana. Ali não havia cheiros. Não havia sons. Apenas um espaço cinzento infinito e o próprio Theon. Ele estava nos Céus de Ninguém. Em um lugar que fora criado especialmente para ele, porque nenhuma outra parte da criação conseguira suportar o seu nível de cringe. Theon levantou-se, sacudiu seus farrapos fantasmagóricos e tocou suas novas sobrancelhas. — Então… eu estou sozinho aqui? — perguntou ele ao silêncio. O silêncio não respondeu. Theon sorriu. Lentamente, em seu rosto espalhou-se aquele mesmo sorriso tonto com o qual ele um dia tomara Winterfell. — Já que não tem ninguém aqui, — proclamou ele solenemente, — então eu sou o mais importante aqui. Eu sou o rei aqui. Rei dos Céus de Ninguém! Sir Theon Massajoy Primeiro! — Ele começou a caminhar pomposamente pelo vazio cinzento, levantando bem alto os joelhos e imitando o som de cascos invisíveis: Tuc-tuc-tuc! — Vejam os meus domínios! — gritava ele para o vazio. — Aqui não tem Ramsay! Aqui não tem canos! Aqui tem apenas eu e o meu poder! — Sentou-se no meio de seu novo reino e começou a imaginar que usava o maior gorro de bobo do mundo. Estava feliz. Finalmente encontrara um lugar onde ninguém podia insultá-lo, porque ele mesmo era a única fonte de insulto. O vazio cinzento dos Céus de Ninguém era ilimitado, sem som e absolutamente estéril. Ali não havia o cheiro da neve do norte, nem o fedor dos canis de Forte do Pavor, nem mesmo o retrogosto metálico daquele tal urânio que tanto assustara Theon em seus pesadelos. Era um espaço rejeitado por todos os deuses de Westeros: o Deus Afogado desdenhara de suas lágrimas, os Stark — de sua traição, e os Bolton — de seu cringe insuportável. Theon «O Viajante Pra-Lá-E-Pra-Cá» estava bem no centro daquele silêncio. Olhou para as próprias mãos — elas não eram mais pretas de carvão. Tocou a testa — as novas sobrancelhas eram macias e fofas. — Pois bem, — disse ele, e sua voz ecoou perdendo-se no infinito «lugar nenhum». — Finalmente eu sou o principal. Finalmente eu sou o Rei. — Decidiu que, já que era o seu reino, ele deveria ter uma aparência condizente. Como a matéria não existia ali, Theon começou a criar a partir da própria memória — o único recurso que tinha em excesso. Fundação da Capital: Cidade de Theon A primeira coisa que Theon decidiu foi erguer para si um castelo. Mas como em sua cabeça a arquitetura sempre fora associada a algo ridículo, sua cidadela fantasmagórica começou a adquirir formas estranhas. O alicerce ele lançou feito de esquis imaginários gigantes — exatamente como os pés de Ramsay. As paredes ele «ergueu» de ferragens enferrujadas gigantes, soldadas entre si pela força invisível de sua loucura. Em vez de flechas nas torres, projetavam-se pedaços de canos que lhe apareciam nos pesadelos. — Meu castelo se chamará Norte de Ferro — declarou Theon orgulhosamente, caminhando pelos salões invisíveis. — Aqui não haverá escadas, apenas chãos giratórios! Para que cada convidado sinta o mesmo que eu senti naquela noite fatal! Não serei apenas eu a sofrer. — Sentou-se no trono, que consistia em uma pilha enorme de espadas de carvão imaginárias. Theon não tinha mais medo da radiação — ali ele mesmo era a fonte de tudo. Colocou na cabeça uma coroa fantasmagórica. — Eu, Theon Primeiro, Massajoy da minha linhagem, dou início ao meu reinado! — proclamou ele. — Primeiro decreto: a todos os meus súditos… ou seja, a mim… é permitido miudear o passo vinte e quatro horas por dia! — E ele começou a miudear o passo. Corria em círculos pelo seu castelo cinzento, batendo os calcanhares descalços: Shlep-shlep-shlep-shlep! No silêncio dos Céus de Ninguém, aquele som era a única música. Theon estava feliz. Ali não havia Ramsay que pudesse atingi-lo com um saco na cabeça. Ali não havia Jaime que pudesse enganá-lo com a «carne de cavalo branca». Conselho Real Mas a solidão logo começou a pesar ao monarca. Um rei precisa de conselheiros. Como nos Céus de Ninguém não havia uma única alma viva, Theon decidiu recorrer aos companheiros mais fiéis de sua vida insignificante na terra. Aproximou-se de uma mancha espelhada no ar e concentrou-se. Por um esforço de vontade, obrigou suas novas e normais sobrancelhas a incharem e caírem novamente. Em um instante, em sua testa ostentavam-se novamente dois magníficos, púrpuras e carecas ouriços. — Saúdo-vos, lordes-conselheiros! — disse Theon solenemente, olhando para o reflexo. — Lorde Ouriço Esquerdo e Sir Ouriço Direito. — Hoje está em pauta uma questão importante: como puniremos Brienne de Tarth por ela ter se revelado uma mulher? Começou a responder a si mesmo, mudando as vozes. — Devemos desenhar nela uma barba ainda mais longa, vossa majestade! — guincho ele pelo Ouriço Esquerdo. — Não, devemos forçá-la a galopar em uma vaca com cabeça de urso! — rouquejou ele pelo Direito. Theon discutiu longamente com as próprias sobrancelhas. Debateram se deveriam introduzir um imposto sobre pés longos e se deveriam obrigar todos os habitantes dos Céus de Ninguém (ou seja, o Theon) a usarem uma corda-intestino em vez de cinto. Foi o conselho mais produtivo na história de Westeros, porque ninguém contradizia o rei — exceto o próprio rei, quando ele acidentalmente lembrava que era o «Fedor». — Silêncio! — gritou Theon, quando a discussão sobre a barba da Brienne tornou-se quente demais. — Eu tomo a decisão! De agora em diante em meu reino todas as mulheres serão consideradas cavaleiros barbudos, e todos os cavaleiros — mulheres de escorredor! Assim será justo! — O Grande Prank Para dissipar o tédio da eternidade, Theon decidiu realizar o «Prank Global do Além». Lembrou-se daquele mesmo cano que um dia lhe trouxera tanto sofrimento. Nos Céus de Ninguém ele criou uma cópia dele — um cano enorme, infinito, que envolvia seu castelo como uma serpente. — Agora eu mostrarei a todos os deuses como se faz um prank de verdade! — declarou ele. Theon aproximou-se do cano. Sabia que não havia urânio lá dentro, afinal aquele era o seu mundo. Mas seu TEPT ainda exigia drama. Encheu o peito de ar fantasmagórico e soprou no cano. Da outra ponta do cano saiu não uma nuvem de vermes, mas miríades de pequenas cópias risonhas de Theon. Elas se espalharam pelo vazio cinzento, miudeando o passo e gritando: «Feliz Passoween! Feliz Passoween para todos!». — Isso é genial! — Theon rolava pelo chão cinzento de tanto rir. — Eu sou o mestre! Eu sou o maior prankster do Universo! — Sentia a redenção. Cada vez que mais uma pequena cópia de Theon se espatifava de cara na lama invisível, o «verdadeiro» Theon no trono sentia um influxo de orgulho. Sua vergonha deixara de ser sua dor. Tornara-se seu súdito. Tornara-se seu exército. Invasão de Luz De repente, no vazio cinzento, algo mudou. Surgiu um ponto brilhante — uma fenda no espaço. Era a tentativa de alguma alma perdida e justa dos Sete Reinos de encontrar o caminho para os Céus de Theon. Alguma pequena e pura alma de uma criança de Winterfell, que sonhava com Hogwarts, tropeçara acidentalmente no portal de Theon. A fenda começou a se expandir. Uma luz dourada e pura derramou-se sobre os chãos cinzentos do Salão-Centrífuga. Theon parou no trono. Seus ouriços na testa pulsaram apreensivamente. — Quem é? — sussurrou ele. — Ramsay? Jaime? — Da luz saiu uma figura minúscula de branco. Era a alma daquela mesma criança que não entrara em Hogwarts porque, por causa de Theon, fecharam o portal. A criança olhou para Theon, para o seu castelo, para o seu cinto-intestino e para o retrato barbudo da Brienne pendurado na parede. — Tu… — sussurrou a criança. — Tu és aquele tal Viajante Pra-Lá-E-Pra-Cá? Por tua causa no nosso bosque sagrado não há mais magia? — Theon empertigou-se. Sentiu como voltava a ele toda a sua eloquência acumulada nos momentos de elogios absurdos. — Escute-me, criança! — começou Theon majestosamente. — A magia de Hogwarts é bobagem! Lá existem professores que caem de escadas e quebram o pescoço apenas com o meu olhar! Lá tem o Snape, que não valoriza tintura de conchas! Mas aqui… aqui eu tenho URÂNIO! Eu tenho OURIÇOS CARECAS! — Aproximou-se da criança e começou a contar-lhe sua «piada mortal» sobre o calcanhar do Ramsay. Miudeava o passo ao redor dela, batendo os calcanhares, e mostrava suas sobrancelhas inchadas. Descrevia o gosto do carvão e o som com o qual congelara no telhado. O nível de cringe no salão tornou-se tão concentrado que a luz dourada começou a minguar. A alma pura da criança começou a cobrir-se com uma pátina cinzenta de perplexidade e vergonha. — Pare… — sussurrou a criança, sentindo como sua eternidade se transformava em uma centrífuga infinita de vergonha. — Por favor… eu prefiro ir para o Inferno. Lá ao menos é quente e apenas dói. Mas aqui… aqui eu sinto muita vergonha só por existir no mesmo espaço que você. — Com essas palavras a alma da criança saltou voluntariamente de volta para o vazio, só para não ouvir a continuação da história sobre como Theon fora «descolado por toda Westeros do telhado». O portal fechou-se com um som suave, parecido com um suspiro de alívio. O Rei Absoluto da Vergonha Theon ficou sozinho. De novo. Mas agora ele sabia com certeza: sua vergonha — era a sua força. Era a muralha mais inacessível do mundo. Nem um deus, nem um herói, nem um inimigo poderia entrar em seu reino, porque ninguém teria nervos para suportar sua presença por mais de cinco minutos. — Eu sou invencível! — gritou Theon para o infinito. — Eu sou o Viajante Que Veio E Ficou! — Sentou-se em seu trono de carvão e começou a planejar o futuro. Decidiu que chamaria o próximo século em seu reino de «A Era do Grande Theon». Construiria pirâmides de crânios imaginários de Ramsay, que nunca terminariam, porque eram apenas fruto de sua imaginação. Realizaria torneios onde cavaleiros de escorredor lutariam para levar uma vassourada na cabeça. Fechou os olhos e viu Ramsay. Mas agora Ramsay no sonho de Theon não o batia. Estava de joelhos e implorava: «Oh, grande Theon! Ensina-me a reinar de forma tão legal! Vende-me teus ouriços por três veados! Oh não, por 5 dragões de ouro!». E Theon, sorrindo misericordiosamente, respondia-lhe em sua imaginação: — Primeiro aprenda a miudear o passo, bastardo! Primeiro fique azul no telhado! — Assim Theon Massajoy encontrou sua verdadeira redenção. Não no perdão dos Stark, não na morte em combate, mas na criação de seu próprio mundo, onde a vergonha tornou-se lei, e o absurdo — religião. Sentava-se no Nada cinzento, senhor absoluto de sua pequena e insana eternidade, acariciando os ouriços carecas na testa. Ele era o Rei dos Céus de Theon. A criatura mais solitária, mais suja e mais vergonhosa que já deixara Westeros. Mas naquele espaço silencioso, além de todos os canos e pesadelos, Theon finalmente deixou de ser o Fedor. Ele era apenas Theon. O Viajante Eterno. O primeiro de sua linhagem. E o silêncio dos Céus de Ninguém era sua única e fiel comitiva, que nunca ria… porque o silêncio não tinha boca para expressar todo aquele cringe infinito com o qual Theon preenchera aquele espaço até a borda.
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