Plano de troca de esquis
14 de janeiro de 2026 21:58
A poeira preta de Forte do Pavor penetrara nos poros de Theon Greyjoy tão profundamente que nenhuma água gelada conseguia lavá-la. Sentado em seu canto escuro perto da lareira fria, Theon olhava com horror para seus próprios pés. Depois de um dia inteiro coletando carvão, eles estavam absolutamente pretos, brilhantes no semi-escuridão, como se estivessem cobertos por uma camada de obsidiana. Em seu cérebro inflamado, envenenado por pesadelos sobre urânio e gosma verde, nasceu uma terrível verdade. Não era sujeira. Era podridão. Podridão radioativa, metálica, que começara a devorar seu corpo.
— Estão ficando pretos… —
sussurrava ele, mordendo os lábios.
— Meus pés estão morrendo. Logo cairão, e eu me tornarei um toco sem pernas, brilhando no escuro… —
Ele escutou atentamente. De cima, dos aposentos habitados, veio um som característico. Shlep… Shlep… Pntrtpntr…
Era o som dos passos de Ramsay Bolton. Ramsay tinha uma característica anatômica única, que Theon aprendera como uma oração. Seus pés eram incrivelmente longos, estreitos e flexíveis, lembrando um aglomerado de salsichas amarradas ou esquis gigantes. Quando Ramsay andava pelo corredor, seus pés sempre chegavam — as pontas de seus dedos apareciam no vão da porta bons três segundos antes que o resto do corpo. Aquele som de batida dos longos «esquis» na pedra causava paralisia cardíaca em Theon. Aqueles pés eram um símbolo de poder e saúde. Eles não eram pretos. Não apodreciam. E então Theon teve um estalo. Um plano genial em sua loucura amadureceu instantaneamente.
— Eu vou pegar os pés dele, —
rouquejou ele.
— Eu vou tirar os pés dele, como se fossem botas velhas, e colocá-los em mim. E os meus, podres e envenenados pelo urânio, eu darei a ele. Que ele também sinta como o metal come a carne. Que Ramsay Bolton descubra o que é ser gosma! —
Theon esperou a noite profunda. Sabia que Ramsay dormia profundamente após a caça e o vinho. Theon levantou-se de seu canto, tentando não fazer barulho. Seu coração batia forte em algum lugar perto da garganta. Na porta do quarto de Ramsay havia dois guardas. Pareciam sonolentos e entediados. Quando a figura negra, coberta de carvão, de Theon surgiu da escuridão do corredor, eles nem sequer pegaram as espadas. Para eles, ele era apenas um tolo inofensivo, o «Viajante», que ora miudeava o passo, ora se bronzeava nos telhados no inverno.
— Mestre… —
sussurrou Theon, curvando-se profundamente.
— O mestre pediu… para eu pernoitar com ele. Disse que estava com tédio… queria ouvir sobre a minhoca. —
Os guardas se entreolharam. Um deles bufou.
— Ele está com tédio, é? Pois vá, Gêiser. Só não fedore tanto, senão ele te joga pela janela antes que você abra a boca. —
Theon esgueirou-se para o quarto. Dentro, estava quente e cheirava a pele cara. Ramsay dormia em uma cama enorme, com os braços estendidos sobre os cobertores. As janelas estavam entreabertas, e a luz pálida da lua caía aos pés da cama. Ali eles estavam. Os Grandes Pés-Esquis. Eles eram tão longos que pendiam da beira da cama. Os dedos pálidos, em forma de salsicha, se contraíam levemente durante o sono. À luz da lua, pareciam infinitos. Theon paralisou, fascinado pela limpeza e funcionalidade deles. Não havia um grão de carvão neles.
— Agora… —
exalou Theon.
— Agora eu vou te igualar a mim. —
Ele se ajoelhou à beira da cama. Escondeu cuidadosamente suas próprias pernas sob as bordas dos farrapos, para que a «podridão de urânio» não se transferisse para os lençóis do mestre. Theon estendeu as mãos pretas e trêmulas e envolveu cuidadosamente o tornozelo direito de Ramsay. Estava quente e macio. Theon esperava que escorregasse facilmente, como uma luva molhada, ou se soltasse, como uma peça de um mecanismo complexo. Ele começou a puxar. Primeiro fracamente, depois com mais força.
— Vamos… saia… —
sussurrava ele, apoiando os calcanhares no chão. O pé de Ramsay era incrivelmente elástico. Esticava-se como borracha, ficando ainda mais comprido, mas recusava-se teimosamente a deixar o dono. Theon aplicou mais força. Ele literalmente ficou pendurado no pé de Bolton, tentando «arrancar» o pé da articulação. Naquele momento, Ramsay Bolton, cujo sono era sensível como o de um predador, sentiu um peso estranho. Ele sonhava que seu cavalo tentava arrancar sua bota junto com a pele. Ele abriu um olho e no semi-escuridão viu uma sombra preta e estranha, curvada, puxando-o pelos dedos dos pés com esforço.
— O que é… —
rouquejou Ramsay, sem entender completamente se estava sonhando ou tendo uma alucinação. Theon, ao sentir o movimento, paralisou. Seu cérebro finalmente deu um diagnóstico biológico atrasado: «a anatomia não funciona assim. Os pés não são sapatos. Eles são presos com carne e osso. Tirar e trocar era tecnicamente impossível.»
— Mestre! —
guincha Theon, percebendo a profundidade de seu fracasso.
— Eu… eu estava checando… o urânio! —
Ramsay se levantou sobre os cotovelos, seu rosto se contorceu em confusão.
— Massajoy? Você está tentando roubar meu pé? —
Theon não esperou o diálogo continuar. O pânico, agudo e frio, atravessou-o por completo. Ele soltou o pé «em forma de salsicha» de Ramsay, que bateu na cama com um thump abafado, e saiu correndo como uma bala do quarto. Correu tão rápido que seus próprios pés pretos mal tocavam o chão. Ele não estava miudeando o passo — estava voando, pulando degraus, correndo para o único lugar onde se sentia seguro: o porão mais profundo e escuro de Forte do Pavor, atrás dos barris de vinho azedo. Ramsay sentou-se na cama, massageando o tornozelo dolorido. Seus longos pés ainda vibravam levemente com o puxão. Olhou para a porta, depois para seus pés.
— Que diabos foi aquilo? —
murmurou para si mesmo. Ele estava sonolento e preguiçoso demais naquele momento para correr atrás do Gêiser de Diarreia até os porões. Atribuindo tudo a uma nova crise de loucura de Theon, Ramsay voltou a deitar, decidindo que resolveria isso de manhã. Afinal, seus pés estavam no lugar, embora um pouco esticados. Chegou a manhã. Theon estava sentado no porão, abraçando os joelhos negros, esperando a morte. Quando os guardas vieram procurá-lo, ele nem resistiu. Levaram-no ao salão, onde Ramsay tomava o café da manhã, sentado em sua cadeira com os longos pés apoiados sobre a mesa. Jaime e Cersei já estavam lá. Ramsay certamente lhes contara tudo, pois Jaime engasgava de rir, olhando para suas botas, e Cersei examinava Theon com um novo nível de curiosidade repulsiva.
— Ah, eis nosso cirurgião! —
murmurou Ramsay, cortando um pedaço de toucinho gordo.
— Massajoy, aproxime-se. Quero saber uma coisa. —
Theon aproximou-se, sem levantar os olhos. Suas sobrancelhas tremiam.
— Por que, —
Ramsay fez uma pausa,
— você tentou arrancar meu pé direito durante a noite? Você decidiu que ele lhe cairia melhor? Ou você queria fazer dele um esqui para fugir para a Muralha? —
Theon soluçou. Não fazia sentido esconder a verdade.
— Seus pés… são tão longos e limpos, mestre. E os meus — pretos. Eles apodrecem por causa do urânio. Eu pensei… pensei que se trocássemos, o Senhor apodreceria em meu lugar, e eu galoparia com seus pés em forma de esqui e ficaria saudável… —
Jaime Lannister não se conteve e caiu na gargalhada, batendo com a mão na mesa.
— Galopar nos esquis! Pelos deuses, Ramsay, você ouviu? Ele queria experimentar seus membros! —
Ramsay olhou para seus pés sobre a mesa. Cinco dedos longos e pálidos em cada um. Eles realmente pareciam estranhos e imponentes.
— Você achou que eles se tiravam como roupas? —
perguntou Bolton, e em sua voz soaram notas perigosas.
— Eu… eu me enganei, mestre… —
sussurrou Theon.
— A anatomia… ela é cruel. —
Ramsay levantou-se lentamente. Seu rosto passou de zombeteiro a duro.
— Já que você valoriza tanto meus pés, Massajoy, e tem tanto medo de seus pés «uranianos», nós o ajudaremos a se distrair da podridão. Hoje você não vai andar. Hoje você vai rastejar atrás dos meus pés por todo o castelo e beijar cada um dos meus dedos em forma de salsicha, para ter certeza de que ainda estão em mim e não foram a lugar nenhum. —
Theon caiu de joelhos. Seu plano de salvação da radiação transformou-se em mais um círculo de humilhação.
— E coloque seu escorredor! —
Ramsay acrescentou com ironia.
— Para que todos vejam: Lá vem o Grande Ladrão de Pés! —
O dia inteiro, Forte do Pavor assistiu à procissão vergonhosa. Ramsay ia na frente, seus longos pés batiam nas pedras: Shlep… Shlep… Esquis…. E atrás, de quatro, Theon rastejava no escorredor enferrujado, olhando para os calcanhares infinitos de seu torturador com horror e adoração. A vergonha de Theon Greyjoy tornou-se novamente absoluta — ele se tornou um escravo dos pés que um dia quis roubar.