Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

Geral
NC-17
Finalizado
0
Fandom:
Tamanho:
88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
Publicação em outros sites:
Consultar o autor/tradutor
Compartilhar:
0 Curtir 0 Comentários 0 Para a coleção Baixar

Degustação de antracito

Configurações
A manhã em Forte do Pavor revelou-se pungente e cinzenta. O vento gélido assobiava nas ameias das muralhas, e no pátio, coberto de carvão preto, reinava um silêncio mortal. Após o pesadelo noturno, Theon sentia-se como se seus ossos tivessem se transformado em pó. O medo do «urânio» e dos canos lançou raízes profundas em sua consciência exausta. Ramsay Bolton saiu para o alpendre, envolvendo-se em peles pesadas. Logo atrás dele, envoltos em capas caras, saíram Jaime e Cersei. Sansa estava parada um pouco afastada, observando tudo o que acontecia com uma expressão de dor congelada. — Levante-se, Viajante, — disse Ramsay preguiçosamente, olhando para Theon, que estava encolhido como uma bola diretamente na poeira de carvão. — A noite passou, e o trabalho não se fará sozinho. Já que você tem tanto medo de canos e radiação, decidi vir ao seu encontro. Você deve limpar este pátio do carvão. — Theon levantou a cabeça. Em seu rosto pálido e sujo, os olhos brilhavam febrilmente. — Limpar? — sussurrou ele. — Mas e se… e se entre eles estiver aquela tal coisa? — Exatamente! — Ramsay mostrou os dentes. — Você deve conferir cada pedaço. Se encontrar algo suspeito — traga para mim. Mas lembre-se: se você deixar passar sequer um grão da «morte verde», ela se infiltrará nos porões e dissolverá todos nós. E começará por você! Bu! — Theon saltou de pé, horrorizado. O pânico, alimentado pelas palavras de Ramsay, dominou-o instantaneamente. Ele caiu de joelhos e começou a remexer freneticamente as pedras pretas. Para ele, aquilo não era mais carvão para as lareiras. Cada pedaço parecia-lhe uma bomba em potencial, um estilhaço daquele mesmo pesadelo. Jaime Lannister, encostado no parapeito, observava aquela cena com ironia. — Olhe para ele. Ele trata o carvão como se fossem ovos de dragão prestes a eclodir. Cersei, veja só como ele o cheira. — Theon realmente aproximava cada pedaço grande de carvão do rosto. Tentava captar aquele mesmo retrogosto metálico do sonho. Suas novas sobrancelhas, que ele tanto valorizava, cobriram-se rapidamente de poeira preta, fazendo-o parecer um mineiro louco. — Não tem cheiro… — murmurava Theon, jogando o pedaço para o lado. — Este também não brilha… P-por enquanto não brilha… — Duas horas se passaram. Theon estava completamente coberto de fuligem. Suas mãos tremiam, e as unhas, já deformadas por Ramsay, ficaram pretas pela sujeira entranhada. Ele trabalhava com uma minúcia tão maníaca que ao seu redor cresceram montes arrumados de carvão «conferido». Ramsay ficou entediado. Ele desceu ao pátio, rangendo a neve sob as botas. — E então, Massajoy? Encontrou algo? Ou o «urânio» se esconde mais fundo? — Theon levantou o rosto para ele, onde o suor e as lágrimas haviam formado sulcos brancos bizarros. — Mestre, todos eles são suspeitos. Todos são… pretos. E se for uma luz negra? E se eles estiverem me matando agora mesmo? — Para conferir isso, — Ramsay agachou-se ao lado dele, — é necessário um método confiável. Os meistres dizem que a melhor maneira de identificar o veneno é o gosto. — Theon paralisou. Sua mandíbula tremeu levemente. — Gosto? — Exatamente. O urânio de verdade tem gosto de ferrugem e sangue. Prove este pedaço, — Ramsay estendeu-lhe um estilhaço afiado e brilhante de antracito. Jaime e Cersei entreolharam-se. Mesmo para eles, aquilo era o auge do absurdo. — Você está falando sério, Ramsay? — perguntou Jaime. — Ele vai se engasgar agora. — Ele é um homem de ferro, — sorriu Bolton. — Os estômagos deles devem digerir até pedras do fundo do mar. Vamos, Theon. Pela segurança do castelo. Mastigue. Theon olhou para o carvão. Em sua cabeça ressoou a voz do sonho: «O sangue fervia nas veias… o corpo se desintegrava…». O medo diante de Ramsay era grande, mas o medo diante da morte invisível do cano era ainda maior. Ele decidiu que, se sentisse o gosto agora, pelo menos saberia que estava morrendo. Ele pegou o pedaço de carvão e, fechando os olhos, enfiou-o na boca. Ouviu-se um estalo desagradável. Theon começou a mastigar. A migalha de carvão rangia nos dentes, entranhava-se entre as gengivas, tingindo sua boca de uma cor negro-azulada. — Amargo? — perguntou Ramsay com expectativa. Theon engoliu a massa espinhosa com dificuldade. Seu rosto se contorceu. — Seco… — rouquejou ele. — E… e parece que a língua ficou dormente! Mestre, ficou dormente! Começou! Eu estou me transformando em gosma! — Ele saltou e começou a correr pelo pátio, agarrando o pescoço. — Eu sinto! Está correndo pelas veias! Minha pele está ficando verde sob a fuligem! Socorro! — Nesse momento, uma das cadelas de caça de Ramsay apareceu de trás da esquina. Ao ver a criatura preta e agitada, que emitia sons estranhos, a cadela assustou-se e começou a latir. Theon, decidindo que era uma alucinação ou uma «fera radioativa», jogou-se em um monte de neve, tentando «lavar» de si a radiação imaginária. Ele esfregava o rosto com neve, espalhando o carvão ainda mais, até ficar parecido com uma sombra pavorosa. — Saia! Saia, metal maldito! — berrava ele. Cersei desviou o rosto com nojo. — Isso já nem é mais engraçado. Ele parece um limpador de chaminés que teve um derrame. Ramsay, suas diversões estão se tornando cada vez mais sujas. — Ramsay, ao contrário, estava satisfeito. — Vejam! Ele está se purificando! A grande ablução do Fedor Uraniano! — Theon, definitivamente exausto, calou-se no monte de neve. Ele jazia, respirando pesadamente, e olhava para as próprias mãos. Elas eram pretas. Todo o mundo ao seu redor era preto. Seu TEPT indicou-lhe uma nova e terrível verdade: já que ele comera o carvão, agora ele mesmo era a fonte do contágio. — Eu… eu sou o cano… — sussurrou ele na neve. — Eu mesmo sou agora aquele tal cano… — Quando o obrigaram a levantar e continuar a limpeza, ele o fez com um aspecto como se carregasse todo o sofrimento deste mundo nos ombros. Não correu mais; movia as pedras lentamente, sussurrando desculpas a cada pedaço de carvão. À noite, quando o levaram de volta ao salão, ele não se sentou perto do fogo. Escondeu-se no canto mais distante e escuro, temendo que o calor da lareira «ativasse» seu urânio interno. Ficou sentado ali, preto, silencioso, coberto por uma crosta de fuligem, e estremecendo a cada som metálico. A vergonha de Theon passou para um estágio de melancolia silenciosa e negra, que irritava Ramsay muito mais do que seus gritos, mas para todos os outros ele permaneceu apenas como um louco que tentava comer o inverno para não se transformar em uma gosma verde.
0 Curtir 0 Comentários 0 Para a coleção Baixar
Comentários (0)