Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

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NC-17
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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O Norte se lembra. Hogwarts não conseguirá esquecer parte II (Poção para um tolo)

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A névoa fria escocesa envolvia as torres altas de Hogwarts, mas nem mesmo ela conseguia esconder a vergonha que se desenrolava bem diante dos portões principais do castelo. Theon Massajoy, definitivamente expulso das fileiras dos estudantes, não pretendia ir embora. Privado da varinha e dos restos de sanidade, ele construiu para si uma moradia bem debaixo dos muros da escola. Não era apenas uma cabana. Era um monumento à queda humana. Theon a construiu com pedaços de vassouras velhas, mantos furados que ele pescou das latas de lixo de Hagrid e galhos do Salgueiro Lutador, que periodicamente tentavam estrangulá-lo. Theon sentava-se nesse «palácio de gravetos e lama», abraçando os próprios joelhos, e toda vez que os portões se abriam, ele começava a uivar. — Perdão-o-o-o! — ecoava da cabana. — Eu não vou mais transformar ouriços em ratos-Bolton! Eu serei útil! Deixem entrar o Sor Massajoy! — Estudantes da Grifinória, ao passarem por perto, competiam em pontaria, jogando na cabana «Feijõezinhos de Todos os Sabores» com gosto de cera de ouvido e ovos podres. Theon os pegava com a boca, chorava e gritava que aquilo era mais gostoso do que tudo o que lhe davam nas Ilhas de Ferro. No sétimo dia desse uivo, os nervos até da pessoa mais paciente da escola cederam. Mas quem saiu ao encontro de Theon não foi Dumbledore. Severo Snape desceu até os portões. O Professor de Poções parecia que fora forçado a ouvir três horas de palestras de Lockhart. Ele parou diante da cabana, levantando a barra das vestes com nojo. — Massajoy, — sibilou Snape. — O seu uivo espantou todas as constelações das redondezas. Os centauros apresentaram uma queixa ao Ministério. Por sua causa, até as minhas poções estão começando a amargar mais do que o normal. — Theon tirou a cabeça debaixo de um manto furado da Sonserina. Seu rosto estava coberto por uma camada de sujeira, e do seu ouvido saía uma pena de coruja. — Professor… — rouquejou ele. — Eu vou mudar… Eu serei bom… — Snape silenciou. No fundo de sua alma negra como piche, algo estranho se moveu. Talvez fosse piedade, ou talvez apenas o desejo de encerrar aquela vergonha a qualquer custo. Snape também sabia o que era ser um pária, embora não corresse por aí com um escorredor na cabeça. — Escute-me com atenção, — Snape tirou das dobras das vestes um pequeno frasco com uma poção cintilante em tons de verde-prateado. — Esta é a «Poção do Esquecimento Absoluto». Uma das poções mais complexas que já preparei. Se você a beber, toda a sua memória — todos os seus Greyjoys, Massajoys, Boltons, centrífugas e ouriços carecas — será apagada. Você esquecerá a sua dor. Você se tornará uma folha em branco. Poderá sair daqui e começar uma nova vida em alguma aldeia remota, sem saber quem você é. — Theon fixou o olhar no frasco. A luz prateada da poção refletiu-se em seus olhos alucinados. Ele estendeu a mão trêmula, e Snape colocou o frasco nela. — Beba, — ordenou Snape. — E desapareça da minha vida para sempre. — Mas bastou Theon tocar o vidro frio para que o TEPT, que dormia no fundo de sua consciência, explodisse com nova força. Pareceu-lhe que o frasco não era a salvação. Era o «Coquetel de Forte do Pavor», «Ramsay!» Pareceu-lhe que Snape era um Bolton disfarçado, que queria forçá-lo a beber mercúrio. — NÃO! — berrava Theon, e seus «ouriços carecas» na testa brilharam em um vermelho vivo. — VOCÊ NÃO VAI ME ENGANAR! VOCÊ QUER TIRAR OS MEUS OURIÇOS! É UMA ARMADILHA! — Em um surto de fúria incontrolável e pânico, Theon, lembrando-se de suas habilidades em arremesso de machados (que agora se transformaram em arremesso de lixo), tomou impulso e atirou o frasco com toda a sua força. Ele mirou em Snape, mas seu cérebro desorientado e o estrabismo pregaram uma peça cruel. O frasco passou voando pelo professor, subiu alto no ar, descreveu uma parábola perfeita e, com um tilintar estridente, entrou pela janela aberta do Salão Principal, onde ocorria justamente o almoço solene. DZYNH! Dentro do salão, o frasco atingiu o cálice de ouro de Dumbledore e estilhaçou-se em milhões de gotas brilhantes. Uma névoa prateada preencheu instantaneamente todo o recinto, envolvendo as mesas, os professores e centenas de estudantes. Instalou-se um silêncio. Um silêncio tão profundo que era possível ouvir a queda de uma gota de gordura do peru. Snape e Theon, parados ao portão, paralisaram. Da janela aberta ecoou a voz de Dumbledore: — Hum… Com licença… Mas por que estou usando este vestido? E quem é este velho barbudo no espelho? — Em seguida, ouviu-se a voz de McGonagall: — Eu… eu sinto um desejo estranho de pegar um camundongo, mas não sei por que estou sentada em uma cadeira e não em um tapetinho. Miau. — Metade dos alunos de Hogwarts e quase todo o corpo docente perderam a memória instantaneamente. Neville Longbottom decidiu que era um cacto e tentou criar raízes no prato de sopa. Draco Malfoy começou a afirmar que seu pai era um elfo doméstico chamado Dobby e a exigir uma meia. Hagrid esqueceu que era um meio-gigante e, assustado com o próprio tamanho, tentou se esconder debaixo da mesa, virando-a junto com a comida. A poção de Snape fora forte demais. A escola de magia transformou-se em um enorme hospício, onde ninguém lembrava sequer como segurar um garfo, quanto mais os feitiços. Dez minutos depois, cinco aurores do Ministério da Magia, liderados por Kingsley Shacklebolt, aparataram nos portões de Hogwarts. Eles encontraram uma cena épica: Snape em estado pré-comatoso escorregando pela parede, enquanto Theon Massajoy sentava-se em sua cabana, roendo o colarinho das vestes e murmurando: — Eu venci… Eu redimi todos… Agora somos todos bons amigos! — O que aconteceu aqui? — perguntou Kingsley com voz tonitruante, olhando para a fumaça que saía pelas janelas do Salão Principal. — Foi ele… — Snape, com a mão trêmula, apontou para Theon. — Ele cometeu um ato terrorista contra a memória coletiva da Grã-Bretanha. — Os aurores não perderam tempo com explicações. Theon foi arrastado para fora da cabana pelas pernas. Seus «ouriços carecas» na testa empalideceram quando algemas antimagia se fecharam em seus pulsos. — Theon Massajoy, — pronunciou Kingsley oficialmente. — Por apagamento em massa da memória da alta cúpula da escola, por destruição do processo educacional e por você simplesmente irritar de forma insuportável toda a comunidade mágica… Você é condenado à prisão perpétua em Azkaban. — Theon sequer resistiu. Quando o levavam para o barco, ele olhou para o castelo de Hogwarts pela última vez. — Lá… lá ficaram os meus amigos… — soluçou ele. — Digam ao Dumbledore que os ouriços — são dois, e não um… Azkaban recebeu-o com um frio que era pior que o de Forte do Pavor. Os Dementadores — criaturas que se alimentam de alegria — aproximaram-se da cela de Theon logo no primeiro dia. Eles se prepararam para sugar dele todas as memórias felizes. Mas ao colidirem com a mente de Theon, os dementadores entraram em choque. Eles tentavam encontrar alegria, mas encontravam apenas: O cheiro de carne de cavalo cozida, a centrífuga girando com vômito, a conversa com o morto Jeor Mormont, os caroços inchados na testa e o som infinito e estridente de «tuc-tuc» emitido pelos calcanhares descalços no palco. Um dos dementadores, ao provar o «gosto» das memórias de Theon sobre como ele amarrava o saco com o próprio intestino, emitiu um som borbulhante estranho e simplesmente caiu morto, transformando-se em uma pilha de estopa velha. Os demais guardas de Azkaban recuaram horrorizados da sua cela. Theon Massajoy sentava-se no canto da cela mais escura de Azkaban. Desenhou na parede com carvão um homenzinho com dois caroços enormes no lugar das sobrancelhas. — Agora estou em casa, — sussurrou ele, tirando das dobras dos farrapos o único macarrão seco que restara. — Aqui não tem Cersei. Aqui não tem Ramsay. Aqui tem apenas eu e os meus ouriços. — Todo o mundo mágico estremecia ao lembrar da «Grande Amnésia de Massajoy», e Theon finalmente alcançou o que queria — tornou-se uma lenda temida até por aqueles que não possuem alma. Nos registros prisionais, ele constava como «Prisioneiro nº 0 — Perigoso para a psique». E no Salão Principal de Hogwarts, por muito tempo, pendurou o retrato de Theon, o qual Dumbledore, quando recuperou a memória, ordenou cobrir com um tecido preto, para que ninguém tivesse o desejo de «miudear o passo» novamente pelos corredores da escola.
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