Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

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NC-17
Finalizado
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Liquidificador para o Rei

Configurações
O outono em Forte do Pavor revelou-se verdadeiramente insano. Após o fracasso do «Passoween» e do vergonhoso bater de calcanhares pelo palco, a mente de Theon transformara-se definitivamente numa papa de fragmentos desconexos de grandeza. E então o progresso técnico chegou. Por ordem de Ramsay, que adorava todo tipo de engenhocas engenhosas para extrair líquidos e gritos, trouxeram para o porão do castelo uma construção estranha. Era uma enorme bacia de cobre sobre uma base de ferro com uma manivela maciça e um sistema de engrenagens. O meistre chamava aquilo de «centrífuga» e explicava que servia para girar pessoas nela. Mas Theon, passando por perto e coletando folhas caídas sob escolta (Ramsay ordenara-lhe coletar exatamente 10.000 folhas e organizá-as por tons de amarelo), ouviu com o canto do ouvido a conversa dos guardas. — Dizem que essa coisa gira tão rápido que muda a própria essência das coisas, — disse um. — É, — assentiu o segundo, — da lama faz água pura, do fraco — um atleta. Um centro de força, entende? — Na cabeça de Theon, algo deu um estalo. «Muda a essência… Centro de força…» Seu cérebro traumatizado construiu uma sequência impecável, ao seu ver: «Se eu entrar lá dentro e for girado, minha essência mudará. Deixarei de ser o Massajoy. Voltarei a ser um Greyjoy. Não, mais alto! Serei o Rei! O Rei de Ferro de toda Westeros!». — Veremos, Ramsay, quem rirá por último… — sussurrou Theon para si mesmo, enfiando na boca uma folha de carvalho amarelada. — Você verá como desta barril sairá um novo monarca… — À noite, quando Forte do Pavor mergulhou num sono inquieto, interrompido apenas pelos roncos dos convidados bêbados, Theon decidiu agir. Para não ser reconhecido no caminho rumo à grandeza, encontrou um velho e sujo saco de estopa de batatas. Colocou-o na cabeça, esperando que o saco escondesse sua identidade e o tornasse invisível para os guardas. Não fez furos para os olhos pois, pela sua lógica, se ele não via ninguém, ninguém o via. Orientando-se pelo tato nas paredes frias, o «homem-saco» avançou em direção aos porões. Perto da escada, chocou-se com força contra algo macio e que cheirava a incensos orientais. — Oh, cobras traiçoeiras! — ecoou uma voz feminina aguda. Era Ellaria Sand, que saíra de seus aposentos para conseguir vinho. Ela olhou com horror e repulsa para a criatura ossuda no saco fedorento que cutucava sua barriga. — Que tipo de demônio num saco é você?! — Ellaria lançou sobre Theon tantos palavrões dorneses de baixo calão que até as orelhas dele ficaram vermelhas através da estopa. — Fora daqui, aberração imunda! Se você tocar no meu vestido mais uma vez, eu o darei de comer aos meus cães! — Theon, mortalmente assustado, tentou recuar, mas o saco escorregou completamente sobre seu rosto. Ele perdeu a orientação e, dando um passo atrás, saiu rolando pelos degraus íngremes do porão. Bum! Crack! Ai! — Theon contou com as costelas todos os degraus, até aterrissar numa pilha de palha bem diante da centrífuga. — Isto é uma provação real… — gemeu ele, arrancando o saco do rosto ensanguentado. — O caminho para o trono é árduo. — Ele aproximou-se da centrífuga. Ela era enorme. Theon girou a manivela com todas as forças, acionando o volante. As engrenagens cantaram, a bacia começou a girar, ganhando velocidade. Quando o zumbido passou a lembrar o som de uma tempestade em Pyke, Theon, fechando os olhos, correu e saltou para dentro, agarrando-se com as mãos às bordas da bacia de cobre. Começou a girar. No início foi divertido. «Estou voando! Estou me tornando rei!» — pensava ele. Mas a centrífuga ganhava velocidade. A força centrífuga pressionou-o contra as paredes de tal modo que seu rosto ficou achatado como uma panqueca. O ponteiro do relógio em sua cabeça enlouqueceu. Em certo momento, o estômago, cheio de macarrão, folhas caídas e a água de ontem, não aguentou. Theon começou a vomitar. Mas como ele girava a uma velocidade insana, seu vômito não caía simplesmente — ele voava em círculos, criando dentro da centrífuga um efeito de «carrossel infernal». Ele girava em sua própria erupção, que com a velocidade se transformou numa névoa pegajosa. O mecanismo acelerou ao limite. A base de ferro começou a vibrar e pular pelo chão. De repente, a centrífuga encontrou um parafuso travado e ocorreu um efeito de catapulta. Theon, coberto de vômito e completamente desorientado, foi simplesmente arremessado para fora da bacia pela tangente. Ele voou por todo o porão e, por puro acaso, aterrissou numa enorme pilha de feno que fora preparada para os cavalos de Daenerys Targaryen (ela chegara com sua comitiva e exigia o melhor cuidado para seus animais). Theon bateu no feno com as costas, expelindo o resto de fôlego que tinha. — Eu… eu sou o rei? — rouquejou ele, olhando para as estrelas que giravam diante de seus olhos. Pelo estresse terrível, pela náusea e pelo impacto nas costas, algo estalou novamente na cabeça de Theon. Uma fome primitiva e animal o possuiu. Ele saiu do feno de quatro e viu um cocho. Lá jazia algo vermelho e suculento. Era carne crua — carne de boi de primeira com sangue, que Daenerys ordenara dar ao seu cavalo (corriam boatos de que seus cavalos eram tão ferozes quanto dragões). Theon, fora de si, cravou os dentes no pedaço de carne crua. O sangue escorreu por seu queixo, misturando-se aos restos de vômito da centrífuga e à sujeira do saco. Ele mastigava e rosnava como um cão vira-lata. Ao som dos mecanismos e ao estrondo da queda, todos vieram correndo. O primeiro a invadir o porão foi Ramsay, segurando uma tocha. Atrás dele vinham aos passinhos Tyrion, Jaime, Cersei, Daenerys com rosto assustado e Ellaria Sand, que ainda estava indignada. Eles paralisaram. A cena era épica: no meio do porão estava a centrífuga fumegante, vomitada por dentro. E ao lado, na pilha de feno, sentava-se o «homem-saco» (o saco agora pendia em seu pescoço como um babador), que com olhos alucinados devorava carne crua do cocho dos cavalos, emitindo sons estranhos de rosnados. Tyrion foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Ramsay, eu entendo tudo, o Norte é um lugar cruel… Mas por que você está obrigando seu Massajoy a fazer cosplay de uma batedeira de manteiga enfurecida? — Jaime Lannister apenas encostou-se na parede e começou a escorregar lentamente por ela, cobrindo o rosto com a mão. Seus ombros tremiam. — Ele… ele tentou se bater? — balbuciou Jaime. Ramsay Bolton, que a princípio quis enfurecer-se pelo equipamento estragado, de repente olhou para as pernas de Theon, que ainda continuavam a se sacudir no ritmo da centrífuga, e para sua cara ensanguentada mastigando o almoço equino. Ramsay começou a empalidecer e depois explodiu numa gargalhada tão estridente que assustou até os cavalos nas baias. — Rei! — gritou Ramsay, apontando o dedo para Theon. — Olhem! É o Rei da Carne Moída! Massajoy passou pelo rito de iniciação para processadores de alimentos! — Cersei cobriu o nariz com um lenço, com repulsa. — Que imundície. Daenerys, seu garanhão agora parece ter ficado sem sobremesa. Este… aparelho o comeu. — Daenerys Targaryen olhava para Theon com um horror indisfarçável. — Este é o seu famoso Theon Massajoy? Eu achei que os Massajoys fossem lobos do mar, e não… liquidificadores de porão… — Theon, finalmente percebendo que não estava num trono, mas no feno, e que ao seu redor estava toda a alta sociedade de Westeros, deixou cair lentamente o pedaço de carne da boca. Olhou para as próprias mãos, depois para a centrífuga, depois para o Ramsay gargalhando. Ele não se tornou rei. Em compensação, daquele dia em diante, fixou-se nele o novo e honroso título de «Gira-Gira». E toda vez que ele passava perto da cozinha, os cozinheiros começavam a girar as manivelas de moinhos imaginários e sugeriam que ele entrasse no caldeirão para «chegar ao ponto». A vergonha de Theon era tão grande que ele até esqueceu como miudear o passo. Agora ele apenas andava em círculos, ainda sentindo como se o mundo ao seu redor girasse no sentido horário.
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