Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

Geral
NC-17
Finalizado
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Halloween no estilo «Massajoy»

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Um salto inesperado e brusco no tempo desabou sobre Forte do Pavor como uma nevasca repentina. O inverno, que Theon Massajoy já quase se acostumara a considerar seu companheiro constante, subitamente recuou. O ar frio e úmido foi substituído por um ar fresco, mas que cheirava distintamente a folhas de outono e abóboras. Theon estava sentado no canto de seu cubículo, roendo os últimos e mais duros macarrões de um velho saco, quando foi chamado pelo servo pessoal de Ramsay. — Massajoy! Levante-se! Ramsay exige sua presença! — Theon, mal movendo as pernas inchadas, apresentou-se no salão principal. Ramsay estava sentado no trono, completamente diferente de sua versão invernal: vestia um gibão leve e seu rosto brilhava de impaciência. — O tempo mudou, Gêiser! — anunciou Ramsay alegremente. — É outono de novo. Perdemos meses inteiros de vergonha, mas isso não importa. Está chegando o grande feriado! O feriado da colheita, dos mortos e de tudo o que há de mais repugnante! Halloween! — Theon, cuja memória do passado era fragmentária, paralisou. Ele lembrava de algo vago sobre abóboras e fogueiras, mas agora lembrava apenas de uma palavra que Ramsay pronunciara, provavelmente, em algum diálogo esquecido por ele mesmo. — Pass… Pass… Passoween? — sussurrou Theon, tentando agarrar-se a qualquer palavra. Ramsay deu um tapa na própria coxa. — Exato! Halloween! Mas você, Gêiser, sempre encontra sua própria versão. Enfim, estou indo para Porto Real. Preciso arrastar Cersei, Tyrion e aquele piadista de uma mão só, o Jaime, para a nossa celebração. Isso levará quatro dias para ir e quatro para voltar. — Ele mudou o tom para um tom de comando. — Nestes oito dias, você deve transformar este castelo sombrio e cinzento na morada mais pavorosa do Norte! Quero que os convidados, ao verem a decoração, lembrem-se das torturas mais terríveis que já puderam inventar em Porto Real! Quando eu voltar, deve ser Halloween aqui! — Com essas palavras, Ramsay saltou em seu cavalo e partiu, deixando Theon em completa confusão. Theon sabia que deveria fazer tudo perfeitamente. Mas ele esquecera a palavra «Halloween». Ele lembrava apenas de sua própria palavra distorcida: «Passoween». O pânico devolveu a Theon um breve lampejo de atividade mental. Ele correu direto para o aposento do meistre. O meistre, velho e distraído, estava inclinado sobre uma infusão de ervas. — Meistre! O que significa «passoween»? Que tipo de feriado é esse? — disparou Theon, ainda cheirando aos restos do saco de carniça. O meistre levantou lentamente os óculos. — Passoween? Hmm. É uma palavra do antigo Norte, Massajoy. Significa… passos muito rápidos e curtos. Como se você estivesse correndo, mas com passos miúdos, miúdos. Miudear o passo. Andar trocando os pés rapidamente. Fazer o passinho. — «Miudear o passo! Passos rápidos e curtos!» - essa frase perfurou o cérebro de Theon. Ele entendeu que «Passoween» não era sobre abóboras e mortos. Era sobre movimento! Um feriado dedicado ao movimento rápido e miúdo das pernas! Theon lançou-se a cumprir a tarefa, interpretando-a da forma mais literal possível. Primeiro, foi à galeria onde pendiam os retratos dos ancestrais dos Bolton. Seu plano era genial em sua idiotice. Ele encontrou tinta preta, usada para o esboço inicial. Ele cobriu metodicamente toda a pintura de preto, deixando intocadas apenas… as pernas. Cada lady, cada lorde, cada ancestral feroz dos Bolton estava agora representado como uma silhueta negra, da parte inferior da qual brotavam suas pernas pintadas, mas absolutamente limpas. Depois, dedicou-se à decoração. Ele amassou pedaços de pano branco velho, com os quais fora alimentado ultimamente, e desenhou neles pés e canelas. Ele colou essas «artes» por todo o castelo. Corredores, salão de banquetes, até os banheiros — em todos os lugares havia imagens de pernas que pareciam estar prestes a começar a miudear o passo. O ápice de seu impulso criativo foi o palco. Ele encontrou tábuas velhas e empenadas que estavam jogadas atrás da forja. Em meia hora, esquecendo a fome e a dor, Theon, movido por uma energia maníaca, montou algo que lembrava um palanque ou tribuna improvisada, e instalou-o bem no meio do salão principal de Forte do Pavor. Ele subiu naquela estrutura instável, descalçou-se (para melhor sentir o movimento de «miudear o passo») e ficou à espera. Vestia apenas seus farrapos sujos. Quatro dias depois, quando Theon já quase desabava de exaustão em seu palco, os portões de Forte do Pavor se abriram. Ramsay voltou acompanhado de sua comitiva, entre a qual se destacavam a elegante, porém fria, Cersei, o cínico Tyrion e, oh, horror para Theon, Jaime Lannister, que agora parecia ainda mais impecável do que antes. Os convidados entraram no pátio e viram o castelo. Em vez das decorações pavorosas esperadas — esqueletos, teias de aranha, cabeças de abóbora com olhos flamejantes — eles viram PERNAS. Centenas de pernas. Negras, estranhas, manchadas de tinta, brotando das molduras. Cersei arqueou uma sobrancelha, e em seus olhos passou um lampejo de desprezo. Tyrion riu alto. — Ramsay, querido, — disse Tyrion, tirando a capa. — Sua parenta de Pentos parece ter esquecido de lhe enviar as instruções de como celebrar este feriado. Isso é… consideravelmente específico. Você decidiu que somos todos dançarinos de balé aqui? — Eles entraram no salão. E então viram o palco. E Theon. Theon Massajoy, em pé, descalço sobre as tábuas instáveis, com os calcanhares sujos brotando dos farrapos, parecia um fantasma da loucura. Ramsay Bolton paralisou. Seu rosto alegre empalideceu instantaneamente e depois tingiu-se com a cor da fúria. Ele viu seu castelo transformado em uma galeria de arte abstrata dedicada aos membros inferiores. — MASSAJOY! — urrou Ramsay, mas sua voz se afogou na gargalhada dos convidados. Jaime Lannister, ao ver Theon, cobriu o rosto com a palma da mão, e então seus ombros começaram a sacudir. Ele reconheceu naquela loucura algo familiar — uma estupidez pura, límpida, levada ao absurdo. — Ramsay, amigo, — rouquejou Jaime, tentando conter o riso, — isso… isso é genial. Eu achei que você gostava de assustar, mas você decidiu simplesmente humilhar a anatomia humana! — Theon, decidindo que aquele era o seu momento de glória, fez uma pose. Ele ergueu a cabeça e começou a miudear o passo. Rápida e miudamente, movendo os pés descalços sobre as tábuas de madeira, ele emitia um som característico de chapinha. Shlep-shlep-shlep-shlep! E ele começou a cantar, improvisando com base em seu entendimento distorcido do feriado: — Passoween! Passoween! Pés são rápidos, eles são o fim! Shlep-shlep nas tábuas, para o passinho enfim! Ramsay, você me deu a ordem, eu não falhei! Passoween! Passoween! — O som dos calcanhares descalços batendo na madeira, misturado com sua voz aguda e histérica, era grotesco demais. Cersei, que até então mantinha uma calma gélida, não aguentou. Ela emitiu um som agudo e incontrolável, como se estivesse sendo sufocada em sedas. Ramsay Bolton permanecia imóvel. Seu rosto passou por toda a gama: fúria, vergonha, descrença e, finalmente… explosão. Ele começou a tremer, segurando as costelas. Seu riso era selvagem, sobre-humano; ele caiu no chão, dava pulos, sem conseguir respirar. Suas pernas, que ontem eram tão fortes, falharam. Pela tensão e pelo riso frenético, Ramsay simplesmente perdeu o equilíbrio, desabou no chão de pedra e continuou a rolar, sufocando de tanto rir. — Chega! — gritava ele entre as crises. — Chega, Massajoy! Você… você vai me matar! — Jaime, vendo que nem o próprio Ramsay controlava a situação, aproximou-se do palco para salvar sua própria face e a de Cersei de mais vergonha. — Theon, por tudo o que é sagrado! — gritou Jaime, tentando falar sério. — Você venceu. Você ganhou. Pare! — Theon, vendo que o mestre estava caído no chão, assustou-se achando que uma represália viria a seguir. Ele parou bruscamente, e o silêncio no salão tornou-se absoluto. Ramsay levantou-se lentamente, limpando as lágrimas. Estava pálido, mas em seus lábios brincava um sorriso estranho, maníaco. — Você… — rouquejou Ramsay, apontando para Theon. — Você destruiu minha dignidade, Massajoy. Você fez Cersei parecer estúpida e fez Tyrion beber demais. Você envergonhou meu castelo! — Ele fez uma pausa. — Mas… isso foi tão repugnante, tão sem sentido e tão estúpido… que eu não consigo te punir. — Ramsay balançou a cabeça, sorrindo com desprezo. — Tire esses seus trapos, Massajoy. Amanhã faremos você repintar essas pernas malditas. Mas hoje… hoje você servirá os convidados. Você os atenderá enquanto eles riem do seu “Passoween”. — E assim, Theon Massajoy, escapando da morte mais uma vez, foi condenado a passar todo o feriado no papel de um lembrete vivo de que até o mal mais sofisticado pode ser vencido pela estupidez absoluta e avassaladora.
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