Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

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NC-17
Finalizado
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Desfile em botas de lavanda

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A manhã em Forte do Pavor começou para Theon não com o canto dos pássaros, mas com um chute brusco na lateral do corpo. A lama da punição «das minhocas» de ontem ainda se prendia em crostas à sua pele em alguns lugares, apesar de ele ter passado a noite inteira tentando raspá-la na água gelada do cocho da estrebaria. Seu novo nome - Massajoy já havia grudado nele com firmeza. Até os cães pareciam latir para ele de uma maneira especial, zombeteira. Ramsay Bolton entrou no porão onde Theon tentava se recompor. Nas mãos, Ramsay segurava não um chicote nem uma faca, mas uma pesada caixa de madeira, decorada com entalhes bizarros e revestida de couro turquesa desbotado. — Levante-se, Massajoy, — comandou Ramsay alegremente. — Tenho para você uma tarefa que exige delicadeza. Uma parenta distante por linha materna, daqueles Bolton que um dia fugiram para o outro lado do Mar Estreito e se estabeleceram em Pentos, enviou-me um presente. Pelo visto, ela acha que no Norte ainda andamos em peles de mamutes não curtidas. — Ele colocou a caixa no chão com um estrondo. — Aqui há roupas da nova moda de Essos. Sedas, rendas, algumas penas… Enfim, tudo o que faria de você um rei nas Ilhas Massajoy, se vocês não fossem tão miseráveis lá. Sua tarefa: limpar minhas botas de caça favoritas até que brilhem como espelhos e, depois, organizar esta caixa. Separe as peças por tipo: gibões com gibões, calças com calças, acessórios — separadamente. E que não haja uma única dobra! Se eu vir uma única pena amassada - você comerá essa pena no jantar em vez do seu amado macarrão seco. — Ramsay saiu, deixando Theon sozinho com as botas e o «tesouro» de Essos. Theon começou o trabalho. Seus dedos, desprovidos de várias unhas, tremiam enquanto ele esfregava o couro rústico das botas. Tentando agradar ao mestre, usou os restos de gordura que encontrou num canto, mas por medo confundiu os potes e começou a polir as botas com algo que cheirava a lavanda e água de rosas, aparentemente algum unguento da mesma caixa. As botas passaram a cheirar como um bordel em Lys, mas brilhavam realmente de forma intensa. Depois, ele passou para a caixa. Quando Theon abriu a tampa, um aroma de especiarias exóticas, naftalina e algo doce atingiu seu nariz. Ele nunca tinha visto tais coisas. Lá dentro jaziam montes de tecidos de cores que no Norte simplesmente não existiam: limão, fúcsia, turquesa delicado, dourado. O problema de Theon era que seu transtorno de estresse pós-traumático e a humilhação constante transformaram sua mente em um mecanismo estranho, que buscava em tudo uma armadilha ou uma ordem oculta. Ele olhava para aquelas coisas e não entendia o que eram. Em Pentos a moda era bizarra e a parenta de Ramsay, ao que tudo indicava, possuía um gosto muito específico. Theon puxou algo que parecia uma enorme saia rosa com muitas camadas de renda. «Isso deve ser uma capa cerimonial para os ombros», pensou Theon, lembrando-se de como os lordes usavam seus mantos com orgulho. Em seguida, encontrou calças de seda justas, que tinham fendas estranhas nos quadris e eram bordadas com penas de pavão. «Grevilhas de combate», decidiu Massajoy. Mas o mais difícil foi o adereço de cabeça. Era um enorme turbante, decorado com a empalhação de uma pequena ave-do-paraíso e fios de pérolas pendentes. Theon girou-o nas mãos por muito tempo. Lembrou-se de Ramsay falando sobre «organizar». Em seu cérebro inflamado nasceu uma ideia: para melhor organizar as coisas e ter certeza de que não estavam amassadas, ele deveria… experimentá-las. Não apenas experimentar, mas mostrar a Ramsay como vestir «corretamente» esses presentes de além-mar. Ele queria provar que era útil, que entendia de luxo, afinal ele já vivera em Winterfell. Duas horas depois, Ramsay Bolton voltou. Ele esperava ver Theon, tristemente mexendo num monte de trapos, ou, no pior dos casos, chorando sobre uma seda estragada. Mas o que ele viu quando abriu a porta o fez estacar no limiar. No meio do porão estava Theon Massajoy. E este era o auge da sua vergonha. Nas pernas de Theon estavam as calças de seda com penas, mas ele as vestira ao contrário, de modo que as fendas nos quadris expunham seus joelhos sujos e magros. Por cima delas, ele puxara aquela mesma saia de renda rosa, mas não na cintura; ele enfiara os braços nela, decidindo que se tratava de um colarinho-jabot complexo. Como resultado, a saia pendia de seus ombros como um casulo enorme e ridículo, do qual brotava seu pescoço exausto. Mas a coroa do visual era o turbante. Theon o colocara tão profundamente que a ave empalhada pendia bem acima da ponte de seu nariz e, a cada movimento, os olhinhos de vidro do pássaro olhavam Theon nos olhos. Para «completar» o visual, ele enrolou no pescoço um longo cachecol laranja de tecido semitransparente, cujas pontas se arrastavam pelo chão como o rabo de um cão espancado. Nas mãos, Theon segurava solenemente as botas de Ramsay, que agora perfumavam o porão inteiro com rosas. — Mestre… — rouquejou Theon, tentando ensaiar uma reverência majestosa. O pássaro no turbante balançou e deu uma bicada em sua testa. — Eu… eu organizei. Estas são as vestes de combate dos grandes príncipes do Oriente. Eu as preparei para vossa grandeza. — Ramsay olhou para aquela cena por uns dez segundos em silêncio absoluto. Seu rosto primeiro se alongou, depois ficou vermelho e seus olhos começaram a lacrimejar. Theon, tomando aquele silêncio por ira, começou a tremer, o que fez as rendas rosas em seus ombros palpitarem como as asas de uma borboleta gigante e ridícula. — Você… você… — balbuciou Ramsay. E então o silêncio de Forte do Pavor foi rompido por uma gargalhada como aquelas paredes não ouviam desde a sua fundação. Ramsay não apenas ria - ele uivava. Ele agarrou a própria barriga, curvando-se ao meio. — Massajoy! — gritava Ramsay entre lágrimas. — Oh deuses, você… você parece um cruzamento entre uma mulher de Lys e um pavão depenado! — Theon, sem entender o que estava acontecendo, tentou dar mais um passo para entregar as botas, mas se enrolou no cachecol laranja e caiu de joelhos. A saia-jabot rosa voou para cima, cobrindo sua cabeça inteiramente. Agora, do monte de rendas, sobravam apenas as pernas nas calças com penas e as mãos, ainda apertando as botas. Ramsay ria tanto que suas pernas realmente cederam. Ele não conseguiu se segurar e literalmente desabou nos degraus de pedra da entrada, respirando com dificuldade e continuando a se sacudir em convulsões de riso. Seu rosto ficou escarlate, ele batia com a palma da mão no joelho, incapaz de parar. — Eu… eu queria te matar hoje, eu juro! — gemeu Ramsay, limpando as lágrimas com a manga. — Eu queria tirar a pele dos seus calcanhares por você cheirar a minhocas! Mas isso… isso é ouro! Theon, você é a criatura mais engraçada de Westeros! Você superou todos os bobos da corte do Rei Joffrey! — Theon timidamente tirou a cabeça de debaixo da renda rosa. A ave empalhada em seu turbante agora pendia para o lado e parecia que o pássaro estava bêbado. — V-v-ocêê… você não vai me bater? — perguntou baixinho. Ramsay, ainda fungando de tanto rir, limpou o rosto e olhou para Theon. A raiva desaparecera completamente, substituída por um tipo de êxtase perverso. — Bater em você? Massajoy, se eu te bater, você pode deixar de ser tão idiota, e eu não quero perder um espetáculo desses. Não, hoje você ficará assim. O dia inteiro! Você andará pelo castelo com esse… traje oriental. E as botas! — Ramsay bufou de novo. — Botas com cheiro de rosas! Você as carregará diante de si sobre uma almofada, como relíquias sagradas. — Ele se levantou dos degraus, ainda oscilando levemente por ter ficado sem fôlego. — Vá, Massajoy. Vá e mostre a todos no pátio a «moda de Pentos». Se alguém perguntar, diga que este é o seu traje oficial para comer macarrão. Deuses, este é o melhor dia da minha vida! — Theon, cambaleando sob o peso do casulo rosa e do turbante, foi em direção à saída. As pérolas em sua cabeça tilintavam melodiosamente, e as penas de pavão nas calças varriam o chão. Ele fora humilhado como nenhum outro lorde na história, mas desta vez, estava vivo. Quando ele saiu ao pátio, os soldados dos Bolton primeiro silenciaram e depois, um por um, começaram a cair no chão de tanto rir. Theon caminhava, segurando bem alto as botas com cheiro de lavanda, e atrás dele estendia-se a cauda de seda laranja. Ele era Theon Massajoy. E naquele dia sua única arma contra a morte tornou-se sua própria falta de sentido, levada ao absoluto. Ele se tornou uma piada viva, uma lenda da vergonha, um homem-macarrão em penas de pavão, de quem até as pedras de Forte do Pavor riam. E Ramsay, observando-o da janela, massageou a barriga por um longo tempo, que ainda doía de tanto rir, pensando que, talvez, Jaime Lannister lhe fizera um enorme favor, transformando Greyjoy nesse magnífico e absurdo nada.
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