Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

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NC-17
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Aritmética do Esterco

Configurações
Theon Massajoy arrastava sua existência miserável, acorrentado à tigela de cachorro com macarrão seco e à humilhação. Seus novos aposentos localizavam-se na parte mais úmida e fria das masmorras de Forte do Pavor, mas nem ali ele conhecia a paz. Ramsay Bolton, ao que parecia, desfrutava de cada suspiro de seu novo animal de estimação. Certa manhã, quando o sol mal atravessava as janelas sujas, Ramsay decidiu que chegara a hora de um trabalho físico que, de alguma forma, dissipasse seu tédio. — Massajoy! — a voz de Ramsay ecoou pelo corredor, fazendo Theon estremecer. — Chega de roer torradas como um rato. Eu preciso de limpeza. Você vai ao estábulo e vai limpar todos os dejetos dos cavalos. Toda a pilha de esterco, até o chão. E que o cheiro seja… diferente do seu! — Theon, engolindo apressadamente alguns macarrões, foi mancando em direção aos estábulos. O trabalho era humilhante, mas oferecia um esquecimento temporário do medo constante. Ele pegou uma pá de madeira rústica e começou a recolher metodicamente o esterco fresco, ainda quente. A princípio, ele trabalhou como um animal acuado, tentando fazer o serviço o mais rápido possível. Mas à medida que removia a pilha de terra e excremento de cavalo, sua mente, exausta pelas torturas, começou a procurar algo diferente que pudesse distraí-lo da realidade cinzenta. Seu olhar caiu acidentalmente em uma pequena depressão onde a terra estava úmida devido à água que se infiltrara. E ali… Ali, finas, viscosas, da cor de argila molhada, minhocas se contorciam. Para Theon, aquilo foi uma revelação. Elas se moviam. Estavam vivas. Seu movimento era suave, orgânico, completamente diferente da dor aguda e doentia que ele estava acostumado a sentir. Elas apenas se esticavam, reagindo à umidade e à escuridão, sem conhecer nem Ramsay, nem o medo. Theon parou. A pá caiu de suas mãos enfraquecidas. Ele caiu de joelhos, esquecendo o fedor e o trabalho. Estendeu os dedos trêmulos para uma das minhocas. Ela, sentindo o calor, começou a se retrair para dentro da terra, mas Theon conseguiu agarrá-la. A minhoca esticava-se, esticava-se infinitamente, resistindo, mas nessa luta não havia agressão, apenas instinto. Theon colocou-a cuidadosamente no bolso vazio de suas calças esfarrapadas, ao lado do último par de macarrões secos. Depois encontrou outra. E mais outra. Ele estava fascinado pela vida silenciosa e elástica delas. Elas eram reais, não fantasmas do passado nem maldições do presente. Ele ficou sentado assim por talvez uma hora, coletando cada minhoca que emergia. Não pensava em Ramsay. Não pensava em quem era. Apenas coletava pequenos e viscosos nós de vida. Enquanto isso, Sansa Stark, que era mantida no castelo como uma prisioneira valiosa para «inspirar» os Bolton, passeava acompanhada pela guarda, a quem Ramsay permitira observar a “ordem ideal” nos estábulos. Sansa, sempre observadora, notou a figura estranha no canto de uma baia. Theon, inclinado sobre um trecho úmido de terra, mexia na lama com os dedos concentradamente. Sansa, possuindo uma memória impecável, não pôde deixar de notar que ele não estava limpando o esterco, mas coletando algo pequeno. Ela se aproximou, atraída pelo silêncio estranho que reinava ao redor dele. — O que você está fazendo, Massajoy? — perguntou ela calmamente; sua voz era fria, mas nela soava curiosidade, e não fúria. Theon deu um pulo tão brusco que quase caiu. Ele tentou cobrir os bolsos. — Nada! Eu… eu estava apenas… examinando a terra, lady Stark. Procurando… artefatos. — Sansa sorriu com desprezo. — Artefatos? Em uma pilha de bosta de cavalo? Você esqueceu que não tem mais ouro. Ou decidiu que esses «artefatos» também precisam ser pagos? — N-não! — Theon gaguejou. Ele sentiu seu bolso se mexer. Sansa o ignorou e olhou atentamente para o chão. Viu os rastros frescos onde alguém, cuidadosa e minuciosamente, coletara algo vivo. Ela não chamou a guarda, mas sua mente já trabalhava. Sabia que Ramsay não perdoaria a distração do trabalho. Quando Theon finalmente terminou o serviço (embora não tivesse limpado todo o estábulo como exigido), ele se apressou para seu cubículo para esconder sua minúscula coleção. Mas no limiar, Ramsay o esperava. Ele estava montado em seu cavalo favorito e, ao lado dele, havia uma nova e enorme pilha de terra, trazida especialmente em uma carroça. Aquela terra parecia artificial, era fofa, úmida e suspeitamente escura, claramente trazida de algum barranco particularmente fértil. — Massajoy, — Ramsay não sorria. — Você estava vadiando. Relataram-me que você estava meditando sobre a bosta, em vez de trabalhar. Você não deve se distrair da sua vocação. Você é minha propriedade, e a propriedade deve ser produtiva. — Theon empalideceu. Ele sabia o que o esperava. — Mas… eu… eu terminei quase tudo. — Você terminou parte do trabalho. Mas você me deve uma coisa em troca, Fedor, — Ramsay apontou para a nova pilha de terra. — Esta terra é da margem sul do Rio das Névoas. Está cheia daquelas criaturas adoráveis e viscosas pelas quais você se interessou tanto. Ramsay tirou de seu cinto uma faca de caça pequena, porém afiada, e a enterrou na pilha. — Você tem uma nova tarefa. Você vai revirar toda essa terra. Com as mãos nuas. E você deverá me enumerar exatamente quantas dessas pequenas criaturas rastejantes você encontrará. — Mas… Ramsay, isso é impossível! Elas se escondem! — gemeu Theon. — Você é um Massajoy! — berrou Ramsay. — Você veio das Ilhas de Ferro! Ou esqueceu como se coleta moluscos das pedras? Colete todas. Eu quero uma contagem exata. — Ramsay não pretendia deixá-lo sair até que terminasse. Ele fez um gesto para que a guarda levasse Theon até a nova pilha e se afastasse a uma distância segura para não se sujar. Theon prostrou-se diante da montanha de terra. Abriu o bolso, soltando aquelas 12 minhocas que conseguira coletar, e olhou para elas como se fossem seus últimos amigos. Colocou-as em um pequeno rastro seco de um macarrão que estava por perto. As horas passavam. O sol subiu alto e começou a queimar. As mãos de Theon cobriram-se rapidamente de lama, pele esfolada e cortes de pedras afiadas. Ele cavava. Ele procurava. Cada vez que encontrava uma minhoca, sentia um alívio momentâneo, mas bastava colocá-la em seu «cofre» improvisado para perceber que a próxima teria que ser buscada nas profundezas. Enquanto ele sofria, Sansa, sob o pretexto de que estava sentindo falta de ar, observava-o da janela da torre. Ela tinha certeza de que a busca dele terminaria em fracasso. Decidiu contar por conta própria quantas ele poderia coletar aproximadamente. Começou a calcular, estimando a densidade da terra e a quantidade média de minhocas por pé quadrado. Pegou um lápis e um pequeno pergaminho que sempre carregava consigo. Ao entardecer, quando as sombras se alongaram, Ramsay voltou para conferir a «pesca». Theon parecia uma estátua viva de argila e medo. Seu cabelo estava grudado, seus olhos estavam vermelhos pelo esforço e suas mãos tremiam. — E então, Massajoy, — a voz de Ramsay estava cheia de expectativa. — Quantas almas você extraiu dessas entranhas sujas? — Theon levantou a cabeça. Tinha medo de que, se dissesse a verdade, Ramsay pensasse que ele roubara as outras. Ele engoliu em seco nervosamente e soprou seu veredito, baseado em uma contagem instável e no pânico. — Cento… cento e três, meu senhor. — Ramsay franziu a testa. Ele se aproximou da pilha e acenou negligentemente para a guarda. — Tragam-me a Sansa. — Após alguns minutos, Sansa Stark, forçada a descer, parou ao lado de Ramsay. — Lady Sansa, — Ramsay presenteou-a com o mesmo sorriso que dava a Theon, mas muito mais sinistro. — Você foi testemunha do tormento dele. Você é tão atenta aos detalhes. Quantas minhocas, na sua opinião, ele deveria ter encontrado nesta pilha? — Sansa, olhando para Theon, que agora a fitava com súplica nos olhos, respondeu calmamente: — Eu não estudei a densidade do solo deste rio, Ramsay, mas pelas minhas estimativas, em tal volume de terra deve haver não menos que cento e dez… ou algo assim. Mas tenho certeza de que Theon se enganou. Ele está cansado demais. — Ramsay virou-se para Theon, e seu rosto se contorceu de fúria. — Seu pedaço de merda miserável! Você não conseguiu nem contar direito o que coletou! Você acha que eu não sei que você não conseguiu encontrar todas? Você as estava escondendo! Você mentiu para mim! — Não! Eu… eu perdi a conta! — gritou Theon. — Você não perde a conta! Você sempre sabe contar quando o assunto é traição! — Ramsay atingiu-o com o punho no rosto. Theon rolou pelo chão. — Já que você não conseguiu encontrar todas, Massajoy, você se tornará elas! Você vai absorver essa sujeira em si mesmo! — Ramsay aproximou-se da pilha de terra trazida. Enfiou as duas mãos na parte mais úmida do meio. Ele pegou uma massa enorme, molhada e pesada de terra, lodo, restos de folhas do ano passado e, claro, dezenas de minhocas vivas e retorcidas. — Você não valoriza sua vida, Theon Massajoy, — sibilou Ramsay. — Você vai valorizar a lama. — Ele agarrou Theon pelos cabelos, forçando-o a levantar a cabeça. — Você vai esfregar isso em si mesmo! Toda essa massa viva e fedorenta! Da cabeça aos pés! Que sua pele se lembre do que é ser uma minhoca! E até que você seque, você não ousa tirar isso! — Theon deu um grito, mas o grito morreu em sua garganta quando Ramsay começou a esfregar a terra úmida, fria e com cheiro de podridão em seu rosto. Minhocas, vivas e mortas, entraram em seu cabelo, em seus ouvidos, sob suas roupas. Ramsay o besuntou metodicamente, sem poupar forças, até que Theon se transformou em uma estátua viscosa e móvel de lama marrom, da qual brotavam finos filamentos brancos que saíam dos pedaços de terra. Sansa desviou o olhar, mal contendo o impulso de vômito, mas conseguiu notar como uma das minhocas, saindo da lama úmida no pescoço de Theon, rastejava lentamente em direção ao ouvido dele. — Agora, — Ramsay recuou para admirar sua criação, — você ficará parado aqui até de manhã. Se você espantar uma única minhoca, eu farei você comê-la. E não ouse tirar isso até que o sol seque cada milímetro da sua pele. — Theon ficou parado. Não conseguia se mover. A lama era fria e pesada. Ele sentia as pequenas criaturas, suas «amigas», rastejando por seu corpo, e aquela sensação era tão surreal que ele parou de sentir medo. Sentia apenas o peso, a lama e uma insignificância absoluta e avassaladora. Ramsay, satisfeito, voltou para o castelo, rindo da nova «Escultura Massajoy». Theon passou as 24 horas seguintes no pátio traseiro, como um espantalho abominável. Quando a lama finalmente secou, transformou-se em uma crosta grossa e rachada. Ele sentia-se como pedra. Quando a guarda o rendeu, ele raspou lenta e dolorosamente a crosta ressecada, expondo a pele inflamada pela lama e pela fúria. Entre os torrões secos de lama que caíram, ele encontrou seu «cofre» vazio — o rastro do macarrão ressecado onde jaziam suas primeiras 12 minhocas. Estavam todas mortas. Ele cerrou o punho, onde havia apenas terra seca e minhocas mortas. Ele não chorou. Theon Massajoy apenas sabia que amanhã Ramsay encontraria algo mais para transformá-lo em um refugo que não consegue sequer contar direito sua comida ou seus amigos.
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