Theon Massajoy: Crônicas da maior vergonha

Geral
NC-17
Finalizado
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88 páginas, 37.357 palavras, 28 capítulos
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Carne de cavalo branca com sabor de Volantis

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um saco inteiro de carne de cavalo de primeira. Se você voltar com qualquer outra coisa ou se for enganado… bem, você sabe o que eu vou arrancar de você em seguida. — Theon assentiu com tanta força que quase caiu de joelhos. Ramsay jogou-lhe uma bolsa pesada com dragões de ouro — uma fortuna inteira que os Bolton haviam confiscado após a queda de Winterfell. — Vá, — comandou Ramsay. — E não ouse olhar para trás. — O mercado ao pé de Forte do Pavor era um lugar sombrio e agitado. Soldados dos Bolton empurravam mercadores, camponeses tentavam vender o que lhes restava, e sobre tudo isso pairava a névoa. Theon caminhava, pressionando a bolsa contra o peito. Seu transtorno de estresse pós-traumático transformava cada som: o bater dos cascos, o grito do açougueiro, o tilintar do aço em ecos de gritos na câmara de tortura. Parecia-lhe que Ramsay o observava de cada sombra. Ele tinha que encontrar carne de cavalo. Era uma tarefa simples, mas para Theon, cuja mente estava despedaçada, parecia mais difícil do que a tomada de Winterfell. — Ei, rapaz! Ou como quer que se chame… criatura? — ecoou uma voz relaxada e zombeteira vinda de trás da esquina de uma das tendas. Theon parou. Aquela voz não pertencia a um nortista. Nela ouvia-se a arrogância de Rochedo Casterly, o tilintar de ouro e a superioridade absoluta. Theon virou a cabeça lentamente. Perto de uma carroça, carregada com fardos estranhos, estava um homem alto em uma capa gasta, porém cara. Sua mão direita estava escondida em uma luva de couro, e com a esquerda ele lançava negligentemente uma moeda de ouro. Era Sor Jaime Lannister. Como ele fora parar ali, na retaguarda do inimigo, era um mistério, mas o Regicida sempre soube encontrar problemas — ou criá-los para os outros. Jaime reconheceu Theon imediatamente. O que restava de Greyjoy causava-lhe uma mistura de repulsa e uma compaixão momentânea, que ele imediatamente reprimiu com seu cinismo característico. — Greyjoy? — Jaime semicerrou os olhos. — Deuses, parece que você foi passado por um moinho de grãos. O que está procurando aqui? Por acaso é honra? Receio que neste mercado não a entreguem há muito tempo. — C-carne… — rouquejou Theon, olhando para os lados. — Eu preciso de carne de cavalo. O mestre… Ramsay… ele vai me matar. Eu preciso de um saco de carne de cavalo. — Jaime Lannister deu um sorriso de lado. Em sua cabeça amadureceu um plano, tão ridículo quanto cruel. Em sua carroça havia uma carga que ele interceptara de um mercador de Essos — tubos estranhos e duros feitos de farinha, que os sulistas chamavam de «pasta» ou macarrão. Para os nortistas, aquilo era uma raridade, completamente inútil nas condições do inverno. — Carne de cavalo? — Jaime fez uma expressão solidária. — Meu amigo, você está com sorte. A carne de cavalo está em falta hoje em dia. Os cavalos foram comidos pelos lobos ou pelos Dothraki, que todos começam a ver após a quinta caneca de cerveja. Mas eu tenho algo melhor. — Ele tirou da carroça um saco bem cheio. Dentro, algo fez um ruído seco e abafado. — Isso é «Carne de Cavalo Branca de Volantis», — disse Jaime em tom sério. — Veja bem, em Essos os cavalos são alimentados com pérolas e leite. Sua carne torna-se dura como osso para não estragar na estrada. Mas basta jogar isso em água fervente e ela se transforma no filé mais macio, que fará seu mestre cantar de alegria. — Theon fixou o olhar no saco. Sua mente gritava que a carne não podia ser seca e barulhenta. Mas o pânico bloqueava a lógica. Em sua cabeça surgiam imagens da faca de Ramsay. «Se você for enganado…» — ressoava a voz de Bolton. — Isso… isso é mesmo carne? — com o dedo trêmulo, Theon cutucou o saco. Através do tecido, sentiam-se palitos duros. — Você me ofende, Greyjoy. Esta é a carne mais cara do mundo. Uma verdadeira iguaria para lordes. Normalmente eu peço três bolsas de ouro por ela, mas para você, como antigo conhecido, farei por uma. Apresse-se, antes que o açougueiro da loja vizinha perceba o tesouro que tenho em mãos. — Theon ouviu latidos de cães ao longe. Pareceu-lhe que os cães de Ramsay já corriam atrás dele. O medo, cegante e que anula a vontade, prevaleceu. — Pegue! — Theon entregou a Jaime a bolsa com o ouro dos Bolton. — Por favor, dê isso para mim! — Jaime aceitou o ouro com facilidade, mal contendo o riso. — Pegue, Barão Theon. E diga a Ramsay que os Lannister sempre pagam suas dívidas… — Theon agarrou o saco, que parecia suspeitamente leve para carne, e, tropeçando, correu de volta para o castelo. Jaime acompanhou-o com o olhar, balançou a cabeça e começou a arrumar suas coisas sem pressa. — E no fim das contas, — sussurrou para si mesmo, — isso foi até fácil demais. — Forte do Pavor recebeu Theon com um silêncio sombrio. Ele correu para o salão de jantar, onde Ramsay, já consideravelmente embriagado, amolava a faca na borda da mesa. — Ah, o Fedor voltou, — Ramsay sorriu, e esse sorriso não pressagiava nada de bom. — E então, trouxe minha carne de cavalo? Os cães já estão com fome. E eu também. — Sim, mestre… a melhor… de Volantis… — Theon respirava com dificuldade, o suor escorria em bicas por seu rosto exausto. — Muito cara. Carne de cavalo branca. O ouro… dei tudo. — Ramsay arqueou uma sobrancelha. — Carne de cavalo branca de Volantis? Parece história para enganar idiotas, Fedor. — Ele se aproximou do saco, que Theon havia colocado cuidadosamente sobre a mesa. Ramsay o apalpou. Ouviu-se um característico estalo seco. O rosto de Bolton começou a ficar lentamente púrpura. Ele desamarrou os nós e olhou para dentro. Em vez de pedaços suculentos de carne, olhavam para ele tubos amarelados e secos de massa. Macarrão penne, barato e sem gosto. O silêncio que se instalou no salão era fisicamente palpável. Theon estava parado, sem ousar se mexer, seus olhos arregalados pela percepção da catástrofe. — Isso… — Ramsay enfiou a mão no saco e tirou um punhado de macarrão. — O que é isso, Fedor? Isso é carne? Onde está o sangue? Onde estão os tendões? Onde está qualquer coisa que um dia correu pelo campo? — Ele… ele deve inchar na água… — balbuciou Theon, sentindo suas pernas ficarem como gelatina. — Foi o que o cavaleiro disse… — Cavaleiro? — Ramsay de repente começou a rir, mas era um riso seco e venenoso. — Você foi enganado por algum vigarista! Você deu o ouro do meu pai por um saco de massa seca! — Ramsay agarrou o saco pelas bordas. Era pesado para Theon, mas para Ramsay, acostumado com a espada e o machado, era a arma ideal. — Você não é o Fedor, — rosnou Ramsay. — Você é mais burro do que a bosta dos meus cães! — Com essas palavras, Ramsay deu um impulso e, com toda a força, atingiu Theon na cabeça com o saco. CRACK! O saco, sem resistir ao impacto contra o crânio ossudo de Greyjoy e à força do golpe, estourou direto no ar. Milhares de macarrões secos voaram pelo salão como fogos de artifício. Eles ricocheteavam nas paredes de pedra, caíam nas taças de vinho, entravam pelo colarinho de Ramsay. Theon caiu de joelhos, coberto pela «carne de cavalo branca», enquanto um fino fio de sangue escorria por sua testa. Ramsay estava de pé, respirando pesadamente, todo coberto de pó de farinha. Ele olhou para o macarrão espalhado pelo chão e depois para o trêmulo Theon. — Macarrão… — sussurrou Ramsay. — Todo o meu orçamento do mês se transformou em maldito macarrão. — Ele agarrou Theon pelos cabelos e o obrigou a olhar para a bagunça. — Fedor, isso é honroso demais para você. De agora em diante, você tem um novo nome. Já que você gosta tanto desse lixo, você se tornará parte dele. Você é — Massajoy. Theon Massajoy, o Lorde dos Tubos Vazios! — Os servos e soldados que estavam junto às paredes começaram a rir. Ramsay chutou um monte de macarrão. — E já que você gastou todo o ouro com essa comida, não receberá mais nada. Ei, tragam uma tigela de cachorro! A mais suja! — Um minuto depois, diante de Theon, que agora era oficialmente Massajoy, colocaram uma tigela de ferro de onde um dos cães de Ramsay acabara de comer. Bolton pegou um punhado de macarrão seco e duro do chão e jogou na tigela. — Coma, Massajoy. Seco. Se eu vir que você está tentando cozinhá-los, eu cozinharei seus dedos em vez disso. Este é o seu castigo. Você vai roê-los até que este saco acabe. — Theon, soluçando, alcançou a tigela. A massa seca arranhava as gengivas, prendia nos dentes e não tinha gosto nenhum. Ramsay sentou-se de volta à mesa, observando a cena com prazer sádico. — E então, Massajoy? Sente o gosto de Volantis? — zombava ele. — Roe, roe com mais força. Os homens de ferro não semeiam, eles colhem… No seu caso — colhem uma safra de macarrão em uma tigela de cachorro. — Durante toda a noite, no salão de Forte do Pavor, ouvia-se apenas um som: o estalar de macarrão seco e o choro baixo de um homem que um dia quis ser o rei das ilhas e se tornou motivo de piada, enganado por um Lannister de uma mão só. Desde então, no castelo, não o chamavam de outra forma. Os soldados, ao passar por ele, jogavam aos seus pés um punhado de fusilli ou espaguete e gritavam: «Ei, Massajoy, não esqueça de se abastecer!». E Theon, fiel ao seu novo nome e ao medo infinito, recolhia-os obedientemente, escondendo-os em seus farrapos, porque sabia: no mundo de Ramsay Bolton, até um macarrão seco é tudo o que o separa da destruição total. E Jaime Lannister, cavalgando para o sul com uma bolsa cheia de ouro, lembrou-se por muito tempo do rosto de Theon e pensou que, talvez, aquela tivesse sido a negociação mais bem-sucedida na história dos Sete Reinos. Vender macarrão pelo preço de carne de cavalo a um Greyjoy — aquilo era, verdadeiramente, justiça real.
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