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Kayuka Wigura é uma jovem de 17 anos com cabelo castanho escuro de comprimento médio. Ela está no segundo ano da escola secundária e, desde sempre, foi vítima de bullying por parte dos colegas. Em casa, os pais discutem constantemente, geralmente por causa de trabalho ou dinheiro, e raramente prestam atenção a ela. As únicas vezes que o fazem é quando Kayuka tira más notas na escola ou chega atrasada para jantar. Nunca ouvirá uma palavra de orgulho por parte deles. Hoje é mais um dia igual a todos os outros para Kayuka. – Mais um dia a acordar para este mundo cruel. – diz para si mesma, encolhida na cama. Na escola, o cenário nunca muda. Uma das raparigas mais populares, Ai, persegue-a incessantemente, insultando-a e agredindo-a fisicamente, juntamente com as suas amigas. O único lugar onde Kayuka encontra conforto é no terraço da escola, que raramente é frequentado, pois muitos dizem que está assombrado. – Como a brisa da tarde é agradável aqui, o silêncio é muito reconfortante. – comenta, sorrindo com uma leve tristeza. Kayuka ouve um latido. – Então, como estás, Bu? – pergunta, com um sorriso. Bu é um pequeno cachorro de tons amarelados que vive no terraço da escola. Kayuka encontrou-o num dia de chuva, embrulhado numa mantinha e abandonado numa caixa de cartão. Até agora, ele é o único amigo que tem. – Serás sempre o meu melhor amigo. – diz, aconchegando-o ao peito. Kayuka pensava que era a única que sabia da existência de Bu, mas alguém a observava com malícia. – Amanhã trago-te um brinquedo novo. – promete, olhando para ele. Ela adoraria poder ficar assim para sempre, como adoraria poder parar o tempo sempre que ia até ao terraço. – Gostava de ficar mais tempo contigo, Bu, mas tenho de voltar para casa. – diz, com um pouco de tristeza. Antes de partir, aconchega Bu na mantinha, colocando-o na caixa de cartão, e despede-se com um beijo na testa. Em casa, o cenário é sempre o mesmo. As discussões começam por coisas insignificantes, ganhando proporções enormes. Nessas alturas, Kayuka vai para o seu quarto, deitando-se na cama e tapando os ouvidos, à espera que tudo acabe. – Não aguento mais isto. – murmura, com lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto. Muitas vezes, acaba por adormecer ainda com as lágrimas a escorrerem. Outro dia começa, e Kayuka toma o pequeno-almoço com os pais. Antes de sair, coloca o brinquedo novo que encontrou quase novo no lixo dentro da mochila, para dar a Bu. Ao chegar, todos os alunos a olham e riem-se dela, murmurando. Ai aproxima-se, com um ar intimidante. – Ei, ó esquisita! – Sim? – responde Kayuka, olhando-a nos olhos. – Esqueceste-te disto ontem. – diz, mostrando a coleira ensanguentada de Bu. – O que é isto?! – exclama, espantada. – Onde a encontraste? – pergunta, num tom sério. – No terraço, aonde querias que fosse? – ri, de forma debochada. – O que lhe fizeste? – pergunta, levantando a voz. – Ó esquisita, vê como me falas. – diz, agarrando-lhe o cabelo. – Vê lá se não queres receber o mesmo tratamento que aquele cão idiota teve. As amigas da rapariga popular começam a rir, assim como todos os que se encontram no corredor. A única coisa que Kayuka consegue fazer, assim que se solta da mão de Ai, é correr em direção ao terraço. Ao chegar, vê o pior cenário que alguma vez poderia imaginar, vuma enorme poça de sangue que rodeia Bu. Ao aproximar-se, nota que o crânio do pequeno está aberto, um pouco desfeito devido à pancada que recebeu. A única coisa que consegue fazer é pegá-lo, aconchegando-o ao peito, enquanto as lágrimas lhe escorrem pelo rosto. – Não pode ser verdade. Bu? – diz, mexendo-lhe gentilmente, para ver se ele se move, mas sem efeito. – NÃO AGUENTO MAIS ISTO!!!!! – grita, desesperada. Kayuka envolve-o na mantinha e coloca-o na caixinha, ao seu lado. Passa a tarde toda a olhar para o horizonte, com um olhar vazio. – Eras o único que ainda me mantinha aqui neste mundo. – diz, olhando para ele, muito entristecida. Esconde o rosto entre as pernas. Passado algum tempo, sente uma leve brisa fria que a arrepia. Olha para o horizonte e vê uma rapariga de cabelos longos e pretos sentada na torre de água, a olhar para o infinito. Achou estranho como a rapariga já estava ali. – Como a paisagem do entardecer é linda vista daqui. – diz a rapariga de cabelos longos, olhando para Kayuka. Kayuka olha-a com um olhar irritado. – Já não chega o que me tiraram, o que querem mais de mim? – grita. A rapariga de cabelos longos desce da torre e aproxima-se de Kayuka, com os olhos semicerrados. Kayuka, por algum motivo, começa a chorar novamente. – Tenho estado a observar-te. – diz, colocando a mão no ombro dela. – Eu apenas estou aqui por tua causa. – Por minha causa?! – pergunta, intrigada. – Sim. – sorri. – Diz-me, o que vais fazer agora? Kayuka pensa durante algum tempo antes de dar uma resposta concreta. – Não tenho a certeza, mas a única coisa que sei é que já não há nada que me prenda aqui. – diz, olhando para Bu. – Eu sei que os teus maiores desejos são ser livre e vingar-te das pessoas que te magoam. – Como sabes isso? – pergunta, surpreendida. – Como eu te disse, estou aqui por tua causa, nada mais. – Sim, é verdade o que dizes. Gostava de poder concretizar esses dois desejos. A rapariga de cabelos longos sorri. – Eu posso realizar os teus desejos, mas só há uma condição. – Qual? – Em troca, quero algo que valha o mesmo que a tua vida. Kayuka pensa por um momento, mas não por muito tempo. – Aceito, afinal já não tenho nada a perder. – Muito bem, tens cinco desejos para usar, mas atenção, no último desejo pensa bem no que vais desejar. – No último desejo? – Sim, é um conselho que te dou. – diz, num tom sério. A rapariga agarra-lhe o antebraço esquerdo, deslizando a mão sobre ele. – Amanhã já poderás usar. – Ok. Obrigada, penso eu. A rapariga de cabelos longos nada disse, apenas viu Kayuka partir com a pequena caixa de cartão. Ela olhava para o horizonte com os olhos semicerrados. – Não te preocupes, ela sairá bem. Já há muito tempo que ela me chamava, apenas foi uma questão de tempo até nos encontrarmos. Afinal, eras o único suporte que ainda a mantinha aqui. – sorri para o pequeno vulto. Kayuka faz um pequeno funeral a Bu, enterrando-o junto a uma flor de cerejeira. – Descansa em paz, meu amigo. – diz, fazendo uma pequena oração. Em casa, o espetáculo começa e Kayuka vai para o quarto, aproximando-se da janela e olhando para lá fora. – Amanhã será tudo diferente. – diz, com um olhar sério. Deita-se na cama, adormecendo rapidamente. O sol clareia o quarto de Kayuka, acordando-a. Após comer, arranja-se para ir para a escola. Quando chega, como todos os dias, é agredida por um dos rapazes presentes. – Vão-se arrepender! – diz, num tom firme. – Ai, sim?! E o que vais fazer? Bater-nos? – ri-se. – Eu desejo que todos os presentes sintam na pele o que me fazem a mim todos os dias! – grita. Nesse instante, Kayuka sente um corte no antebraço esquerdo. – O que se passa aqui? – pergunta, assustada. Cada um dos alunos começa a pegar involuntariamente em objetos, começando a investir uns contra os outros, atacando-se sem piedade. No final, o cenário é macabro, com sangue por todo o lado. Alguns têm crânios abertos, outros braços e pernas partidas, muitos têm os rostos mutilados, quase irreconhecíveis. – O que fizeste? – pergunta um dos sobreviventes, horrorizado pela cena. Kayuka passa por ele, mostrando-lhe desprezo total. No terraço, observou com mais detalhe o seu antebraço esquerdo, que apresentava uma pequena cicatriz. Suspira, olhando para o horizonte. Antes de ir para casa, decidiu ir à casa de banho para lavar o rosto. – Olha, olha quem temos aqui… – diz numa voz maliciosa. – O que queres, Ai? Já não chega o que me fizeste? – responde, irritada. – Acho que ainda não chega. – aproxima-se dela. – A única maneira de me saciares é tu desapareceres. – Agarra-lhe o braço com força. Ai retira uma navalha do bolso e, num movimento rápido, faz um golpe no braço de Kayuka. – Prendam-na! – ordena às duas amigas. Kayuka tenta soltar-se, mas em vão. – Não te preocupes, serei gentil contigo. – lambe a lâmina ensanguentada. Nesse momento, Kayuka olha-a com uma expressão neutra, o que a faz ficar ainda mais irritada. – Não me olhes com esses olhos!!!! – dá-lhe uma chapada. – E se fores tu a ficar no meu lugar? – diz, num tom sério. – O que dizes? – pergunta, sem entender. – Desejo que sofras nas tuas próprias mãos. Nesse instante, Ai troca de lugar com Kayuka. À frente de Ai encontra-se outro “eu” dela, apontando a navalha para si. Kayuka sente novamente um corte no seu antebraço. – O que fizeste, sua vaca?!!! – apavora-se. – Eu nada, tu é que fizeste a ti própria. – Soltem-me! Estão a ouvir-me? – grita, olhando para as suas amigas. – É inútil, agora estás na minha pele. O olhar de pavor de Ai não afetava minimamente Kayuka. Ai é mutilada várias vezes pelo seu próprio “eu”, e cada grito que dava espalhava mais sangue pelas paredes e pelo chão da casa de banho. No final, as duas amigas dela ficaram aterrorizadas ao olharem para o corpo de Ai, todo mutilado. – Ai!!!!! – diz, tocando-lhe no rosto inanimado. Kayuka vai-se embora, olhando para o antebraço, que agora apresentava mais uma cicatriz, cada vez mais perto do pulso. Ao sair da escola, decidiu visitar Bu e fez uma pequena oração. Lá, ouviu alguém a soluçar. Era um rapaz de cabelo curto, ruivo escuro, vestido em tons de preto. – Estás bem? – pergunta, pondo a mão no ombro dele. O rapaz olhou para ela, mas demonstrou um pouco de desprezo. Kayuka conhecia bem aquela reação de desconfiança. – Conheço muito bem essa reação. – senta-se ao seu lado. – É como quando alguém nos estende a mão e ficamos receosos das suas intenções. O rapaz olha para Kayuka, espantado. – Sim, é verdade. – disse, por fim. – Eu sou Kayuka, e tu? – Yoshi. – sorri. – Este era o sítio favorito de Bu. – diz, com alguma tristeza. – Bu? – O meu amigo de quatro patas. – O que lhe aconteceu? – pergunta, intrigado. – Os alunos da minha escola mataram-no. – olhando para chão. – Só o fizeram porque não gostam de mim. Kayuka faz silêncio por um momento. – E tu, o que fazes por aqui? – olhando para Yoshi. – Nada de especial, apenas tento sobreviver a cada dia neste mundo cruel. – olha para o horizonte. – A única coisa que me mantém preso a este mundo é a minha irmã mais nova, apesar de estar internada no hospital. – dá um pequeno sorriso amargo. Foi nesse momento que Kayuka começou a pensar seriamente. – Amanhã vens para aqui, Kayuka? – Talvez, logo verei. – levanta-se, sorridente. – Por mim, é indiferente, eu estou sempre aqui. A rapariga de cabelos longos observava de cima de um poste. – Parece que já decidiste. – diz, com os olhos semicerrados. Nessa noite, Kayuka teve um sonho. Viu Yoshi em lágrimas com a sua irmã inanimada ao colo, os dois saltaram do terraço do hospital. Kayuka tentou impedi-los, mas sem muito efeito. A única coisa que viu foi os dois corpos inanimados numa enorme poça de sangue, todos deformados devido ao impacto. Kayuka acorda sobressaltada, toda suada. Olha para o relógio, qjá não falta muito para se levantar. Por isso, toma um duche para refrescar-se, depois toma o pequeno-almoço e vai para a escola. Na entrada, uma multidão fazia roda à volta do placar de novidades. Aproxima-se lentamente e lê o slogan em destaque: “JOVENS ESTUDANTES ACABAM NO MANICÓMIO APÓS ASSISTIREM À MORTE DOS SEUS COLEGAS” – Como é que todos de uma só vez foram parar ao manicómio? – pergunta uma rapariga. – Não sei, mas pelos relatos dos peritos, eles ficaram com medo de tudo e de todos. – responde um rapaz. – As amigas de Ai foram uma dessas raparigas, não foram? – pergunta a rapariga, curiosa. – Sim, elas disseram que agora não se conseguem ver ao espelho, pois lembram-se sempre de Ai mutilada. E muitos deles foram encontrados mortos nos seus próprios quartos. – Só há uma coisa que não percebo: como é que ocorreram essas mortes e o que as levou a isso? – diz a rapariga, intrigada. – Pelo que ouvi, a polícia diz que as mortes foram cometidas por eles mesmos, e em relação aos suicídios ainda estão a apurar os factos. – diz o rapaz. – Isso é um pouco intrigante – diz a rapariga. – É que ouvi… Kayuka vai-se embora do local. No corredor, pensa no sonho que teve e esbarra contra alguém. – Desculpa, da próxima vez vou ter mais cuidado. – pede desculpas. – Espero bem que sim. – diz uma voz masculina, com um tom sério. Kayuka olha e vê nada mais nada menos que Kazuwa, a sua primeira paixão do primeiro ano. Quando se declarou a ele, ele humilhou-a em público de tal forma que nunca mais quis saber de amores ou paixões. – Kazuwa!!! – A tua presença estragou a minha beleza. – diz, num tom zangado. Kazuwa é conhecido na escola como “o” top model, pois a beleza física é sagrada para ele; emboneca-se a cada segundo e minuto. Aqueles que não são aprovados por ele, como Kayuka, são praticamente ignorados. Kayuka ainda hoje se pergunta como conseguiu apaixonar-se por um tipo assim. – Ainda te lembras do dia em que foste humilhada? – pergunta, com um tom malicioso. Para além de Kayuka, muitas outras raparigas sofreram com ele. Não bastaria apenas dizer “desculpa, mas não vai dar” ou “não desanimes, tenho a certeza que um dia encontrarás a tua cara metade”, ao invés de humilhá-las. – Diz-me uma coisa, o que te faz ser mais do que os outros? A tua beleza? – pergunta Kayuka, num tom sério. – Sim, é a minha beleza que me faz ser mais do que os outros. – ri-se. – Sendo assim, gostaria de ver-te menos bonito. – sorri. – Menos bonito?! O que estás a dizer? – sem levar a sério. – Logo verás. Desejo que sintas na pele o que é ser humilhado. Kayuka volta a sentir o corte no antebraço, mas desta vez a dor é um pouco mais intensa. Os amigos de Kazuwa ficam sem reação. – Kazuwa, o teu rosto. – O que se passa? – pergunta, intrigado. Ele corre para a casa de banho para olhar-se no espelho. – Não pode ser, isto não é verdade!!!! – grita, em pânico. O que Kazuwa vê à sua frente não é ele, mas sim outra pessoa desfigurada. O cabelo liso que tinha agora está careca, a linda boca deu lugar a uma boca torta com dentes desnivelados. A única coisa que não se alterou foram os olhos azuis. Kazuwa sai disparado, correndo pelo corredor, onde é humilhado constantemente pelas raparigas que ele humilhou. – O que me fizeste? – encolhe-se, escondendo o rosto. – Eu não fiz nada, apenas expus o teu verdadeiro “eu”, nada mais – respondeu Kayuka, lembrando-se de que, no primeiro ano, Kazuwa faltava constantemente, e os colegas dele diziam que tinha gasto milhões de yens em cirurgias plásticas. – Da próxima vez que humilhares alguém, lembra-te de como eras antes das cirurgias plásticas – disse ela, voltando-lhe as costas. Kazuwa nada disse. À beira da flor de cerejeira onde Bu fora enterrado, Yoshi estava encolhido. – Olá, Yoshi, tudo bem? – Perguntou, sentando-se ao seu lado. – Não muito bem, na verdade – respondeu ele, com um ar triste. – O que aconteceu? – Perguntou Kayuka, intrigada. – A minha irmã teve uma recaída e agora está nos cuidados intensivos. Kayuka lembrou-se automaticamente do sonho que tinha tido. – Os meus pais não se importam com ela, dizem que dá muito trabalho – disse ele, irritado. – Eu sou o único que se preocupa verdadeiramente com ela. Se ela morrer, não sei o que será de mim – acrescentou, com os olhos semicerrados. – Não te preocupes, tenho a certeza de que ela vai recuperar bem – disse Kayuka, confiante. – Espero que tenhas razão – respondeu ele, sorrindo. Yoshi começou a contar as suas pequenas e grandes aventuras com a irmã, assim como Kayuka fez com Bu. A tarde caminhava para o fim, dando lugar ao anoitecer. – Tenho de ir Kayuka, já está a ficar tarde. – Ok, até amanhã – disseram-se, sorrindo. Kayuka pensou imediatamente que, talvez para ela, não houvesse amanhã, mas, de qualquer forma, despediu-se de Yoshi com um sorriso nos lábios. A caminho de casa, olhou para o céu estrelado, muito pensativa. Em casa, os pais começaram a discutir mais uma vez. – Já chega!!! – Exclamou, enfrentando-os. Os dois olharam para ela, surpresos. – Desejo que vocês sofram e ouçam o que eu sofri quando vocês começaram a discutir todos os dias. A dor do corte no antebraço fez com que Kayuka gemesse um pouco. Na sala de estar, os pais começaram a ouvir repetidamente as suas vozes, num ciclo vicioso. – Kayuka, faz alguma coisa!!! – Disse a mãe, com as mãos nos ouvidos. Nesse momento, Kayuka começou a sentir-se muito cansada. Olhou para a manga do seu uniforme, que estava encharcada de sangue. Kayuka desmaiou, fazendo com que o seu desejo se esvaísse. Os seus pais correram para socorrê-la. – O momento chegou – disse a rapariga de cabelos longos, levantando-se do topo da torre de Tóquio. Kayuka acordou algum tempo depois, já não estava em casa, mas no terraço do hospital. – Vejo que já acordaste – disse a rapariga de cabelos longos, sorrindo para ela. – O que aconteceu? – Perguntou Kayuka, confusa. – Lembras-te do que eu te disse quando chegasses ao último desejo? – Perguntou, de bruços. – Sim, que eu deveria refletir sobre o que iria desejar – disse Kayuka, aproximando-se dela. – É verdade. Vem comigo, quero mostrar-te algo – disse, agarrando-a pelo braço e puxando-a para baixo. Kayuka fechou os olhos, assustada. – Aqui estamos. Ao abrir os olhos, vê os seus pais ao lado do seu outro “eu”, muito preocupados. – Kayuka, não te contei tudo sobre os cinco desejos – disse a rapariga, olhando-a. – No último desejo está o desfecho de tudo. – Fê-lo num tom sério. – Serás a única a decidir que desfecho queres, por isso vou dar-te tempo para pensares. Kayuka refletiu um pouco. – Diz-me, se eu decidir viver, qual será o meu futuro? – Perguntou, num tom sério. – A isso não te sei responder. – Compreendo – respondeu, olhando para o chão. – De qualquer forma, já faz algum tempo que tomei a minha decisão. – Basta dizeres. – Desejo que Yoshi e a sua irmã conheçam o carinho de uma família e tenham uma vida melhor. Após Kayuka expressar o seu desejo, uma última ferida apareceu no pulso do seu outro “eu”. Os pais chamaram um médico, pois ela estava a esvair-se em sangue. A confusão instalou-se no quarto. – Podemos ir? – disse a rapariga, voltando-se. – Sim. – respondeu Kayuka. No terraço, a rapariga de cabelos longos observava a pequena esfera que tinha na mão. – O que é isso que tens na mão? – Perguntou, intrigada. – É a tua alma. – A minha alma?! – Sim, a tua alma. Ela vale tanto como a tua vida – disse, sorrindo. – É um bem precioso. Kayuka lembrou-se imediatamente do que dissera naquele dia em que se conheceram. – Diz-me, porque não escolheste viver? – Perguntou a rapariga, intrigada. – Podes achar-me má pelo que vou dizer, mas… – fez uma pausa. – Quando era viva, nunca ninguém quis saber de mim. Agora é a vez deles sofrerem e de pesar na consciência pelo que fizeram – disse, num tom sério. – Achas que podias fazer-me um favor? A rapariga de cabelos longos acenou com a cabeça, afirmando que sim. – Poderias deixar uma leve recordação de mim ao Yoshi? Eu não quero que ele sofra com a minha morte. – Claro. – Fico feliz por ter conseguido responder ao chamamento dele – disse, contente por o seu sonho não ter-se realizado. – No meu caso, tu foste a única a ouvir-me – acrescentou, olhando para ela. – Muitas vezes chamamos por alguém, mas nem sempre nos ouvem, e é quando tu apareces. A rapariga de cabelos longos nada disse; apenas a ouviu. – Suponho que esteja na hora, não? – Perguntou Kayuka, olhando para o horizonte. – Acho que ainda não! – Como assim? – Há aqui um amigo teu à tua espera – disse a rapariga, desvendando o mistério. – Bu!!! – Exclamou, felicíssima. – Meu amigo! – Aconchegou-o contra o peito. – Agora sim, sinto-me completa – disse, sorrindo para Bu. Kayuka sentiu-se tranquila pela primeira vez na vida. – Agora sou livre. Os dois desapareceram no horizonte. A rapariga de cabelos longos foi ter com Yoshi, que dormia ao lado da irmã. Passou-lhe a mão devagar pela testa, recriando pequenas lembranças de Kayuka. – Deve ser suficiente – disse, indo-se embora. No topo da torre de Tóquio, ela sentou-se, escutando passivamente, à espera que alguém a chamasse novamente. “Por vezes, a morte é o único caminho que encontramos para saciar os nossos sofrimentos.”A Litter Sorrow
11 de fevereiro de 2026 14:46
Géneros: Drama, DeathFic
Avisos: Mutilação, Tortura, Violência
Sinopse: “Por vezes a morte é o único caminho que encontramos para saciar nossos sofrimentos.”