Terror do Urso
14 de janeiro de 2026 21:35
O salão de Forte do Pavor estremecia com gargalhadas embriagadas. Depois que o intestino de Theon Massajoy realizou seu retorno triunfal, os lordes de Westeros encontravam-se em um estado de êxtase histérico. Ramsay, limpando as lágrimas, já se preparava para ordenar que servissem um novo prato, quando subitamente as portas do salão se escancararam. No salão entrou Jeor Mormont. Ele parecia imponente: um pesado manto negro, barba grisalha, sobrancelhas espessas e um olhar cheio de uma sabedoria severa. No Norte, respeitavam o Lorde Comandante, e sua aparição no banquete parecia oportuna, embora ele devesse estar na Muralha. Ele sentou-se à mesa em silêncio, puxou uma taça para si e percorreu os presentes com um olhar pesado.
— Divertem-se? —
a voz de Jeor soou como o estalo do gelo se partindo.
— Permitam-me também dar minha contribuição a esta noite. Contarei a vocês três histórias da minha vida. Sobre como este velho Urso foi temperado! —
Um silêncio instalou-se no salão. Os lordes prepararam-se para ouvir.
História primeira: A lavagem da Ilha dos Ursos
— A vida na Ilha dos Ursos não é um passeio pelos jardins de Jardim de Cima, —
começou Jeor, olhando fixamente para a frente.
— Lá tudo cheira a sal, agulhas de pinheiro e trabalho duro. Quando eu era criança, com não mais de dez dias de nome, eu era um filhote curioso. Naquele dia, que guardei para o resto da vida, fazia um calor extraordinário para a nossa região! O ar estava pegajoso! Minha mãe, lady Mormont, era uma mulher de temperamento forte. Ela não tolerava desordem em casa. Na cozinha, haviam começado uma grande limpeza: limpavam os caldeirões nos quais, por uma semana, cozinharam carne de veado gorda, miúdos e legumes. Toda aquela mistura transformara-se numa lama espessa e fétida — uma mistura de gordura rançosa, cascas de legumes, lixívia de sabão e água fervente. Aquele caldeirão ficou no fogo por meio dia, borbulhando e emitindo vapores que matavam as moscas! Eu brincava no pátio interno, bem debaixo das janelas da cozinha. Construía um castelo de lama e pedras, imaginando-me o Rei do Norte. Não ouvi quando minha mãe se aproximou da janela. Ela não me via por trás do espesso arbusto de amoras. Ouviu-se um som brusco — o pesado caldeirão de ferro bateu no peitoril de pedra. E no instante seguinte, o céu acima de mim desapareceu. Uma onda enorme de lavagem escaldante e pegajosa desabou. Não era apenas água quente. Era uma morte espessa e fervente! A princípio, não senti dor. Houve apenas uma sensação de peso incrível e um calor que embebeu minhas roupas num único instante. E então veio o grito. Eu sentia como a gordura fervente grudava mortalmente na minha pele, infiltrando-se nos poros. Eu rolava na lama, tentando tirar de mim aquela gosma quente, mas a lavagem estava em todo lugar. Cascas de cebola entravam na minha boca quando eu tentava respirar, e a lixívia quente queimava meus olhos! Minha mãe correu para o pátio quando ouviu meu uivo. Ela me agarrou e me jogou no riacho frio que corria ali perto. A água gelada trouxe alívio, mas quando ela começou a lavar a sujeira, eu vi como, junto com a gordura e as cascas, a pele saía dos meus ombros e das minhas costas — em tiras, como escamas de um peixe cozido demais. Todo o pátio ficou inundado com aquela mistura rosa da minha carne e restos de cozinha. Por uma semana fiquei de cama com febre, e o cheiro de carne cozida — da minha própria carne — perseguiu-me em pesadelos por anos. Desde aquele dia aprendi: o perigo nem sempre vem de um inimigo com uma espada. Às vezes, ele desaba sobre você da janela da sua própria casa, apenas porque alguém decidiu fazer uma limpeza. —
Concluiu Mormont, rindo. Os lordes entreolharam-se, mas riram por educação.
— História segunda: O banquete alado e a vingança contra a irmã —
Jeor deu um gole no vinho, e pareceu que este evaporava mal tocava seus lábios.
— Os anos passaram. Tornei-me um jovem cheio de orgulho e ira. Minha irmã, Maege, sempre foi um espinho no meu flanco. Ela era simplesmente observadora demais, mas vivia me repetindo que eu terminaria meus dias na Muralha. «Você nasceu para o frio, Jeor», dizia ela, rindo na minha cara. «Você comandará ladrões e estupradores, e sua casa será feita de gelo». Eu odiava aquelas zombarias. Queria ser um grande lorde, um guerreiro, e não uma babá para o refugo da sociedade. Aos dezoito anos, meu ódio pelas palavras dela atingiu o limite. Aquele inverno foi cruel. Os pássaros congelavam em pleno voo. Eu ia para a floresta e encontrava dezenas de cadáveres de corvos, pombos e gaivotas. Jaziam na neve. Brrr! Congelados, com olhos vítreos, alguns já começavam a apodrecer sob a camada de geada. Num daqueles dias, coletei um saco cheio desses pássaros mortos. Como o seu Massajoy, apenas sem dedos de reserva. Acendi uma fogueira num barranco profundo, longe do castelo. Depenei-os, as penas voavam para todos os lados, pretas e cinzas, misturando-se com a neve suja. Espetei aquelas carcaças magras e azuladas nos espetos. O cheiro era insuportável — odor de penas queimadas e de carne velha em decomposição. A gordura pingava no fogo, chiando e emitindo uma fumaça cinzenta. Mas eu não parava. Assou-os até que a carne ficasse preta, escondendo a podridão e a magreza. À noite voltei para o castelo. Preparei uma bandeja, decorando-a com restos de ervas para esconder a miséria do prato. Disse a Maege que era uma caça rara, enviada a mim secretamente de Essos, «pássaros do sol», cuja carne fortalecia o espírito. Ela estava faminta. Comeu avidamente, arrancando pedaços da carne preta. Elogiou o sabor, dizendo que «amargava um pouco, mas dava força». Sentei-me à frente dela e observei como ela engolia os restos de pássaros mortos que, ainda ontem, bicavam carniça igualmente morta até que eles mesmos batessem as botas. Quando ela terminou, contei-lhe a verdade lentamente. Descrevi cada cadáver que encontrei na neve. Contei como larvas caíam de dentro de um corvo quando eu o limpava. Maege empalideceu, vomitou ali mesmo na mesa, sobre minhas mãos. Mas mesmo então, limpando a boca, ela olhou para mim com seus olhos de loba e sussurrou: «Você acha que isso é cruel? Na Muralha, Jeor, você ficará feliz com um banquete assim. Você está se acostumando ao seu destino». Eu bati nela naquela hora, mas suas palavras ficaram na minha cabeça para sempre. Eu a alimentei com a morte, e ela viu nisso apenas a confirmação da minha futura vergonha.
História terceira: Chamo-a belamente: «morte de prata nas entranhas do Castelo Vermelho». —
Jeor calou-se, e o silêncio no salão tornou-se tão espesso que parecia que se podia tocá-lo com as mãos. Os convidados pararam de mastigar. Até Joffrey parou de dedilhar as cordas de sua besta.
— Mas o ápice da minha vida aconteceu há bem pouco tempo, —
a voz de Jeor tornou-se baixa, quase suave.
— Eu estava na Muralha. Lá encontrei Jon Snow. O rapaz que eu considerava meu herdeiro, minha mão direita. Ele aproximou-se de mim sob o manto da noite e sussurrou que encontrara uma passagem secreta para as minas sob o Castelo Vermelho. Disse que lá jazia um depósito esquecido dos Targaryen — sacos cheios de pedras preciosas que Maegor, o Cruel, escondera do mundo. Eu, velho tolo, acreditei nele. Descemos às masmorras. O ar lá era pesado, confinado, cheirando a mofo e pedra velha. O caminho foi bloqueado por guardas — mantos dourados, mas não aqueles que patrulham as ruas, e sim sombras silenciosas, guardiãs dos segredos dos reis. Eles não queriam nos deixar passar. Mas Jon sabia como resolver o problema. Eu tinha uma garrafa de vinho velho de Essos, negro como a meia-noite e forte como o aço. Dei a eles como suborno. Eles deixaram o Urso passar para sua última toca. Jon apontou-me para o canto distante de um nicho. Lá jazia um pesado saco de couro. «As pedras estão lá, lorde comandante», disse ele. «Pegue-as». Dei um passo à frente. O saco estava suspeitamente frio. Agarrei-o pelas bordas e o puxei para mim. Mas eu não sabia que, dentro do saco, Jon Snow escondera antecipadamente um enorme frasco de vidro, cheio até a borda com mercúrio. Uma morte de prata, pesada, líquida e viva. Quando puxei o saco, o vidro lá dentro estourou. Os estilhaços afiados cortaram instantaneamente o couro velho do saco. No instante seguinte, o mundo para mim tornou-se prateado. O mercúrio jorrou sobre mim — frio, incrivelmente pesado, penetrando através das roupas. Ele grudou na minha pele, entrando nas botas, sob o colarinho. Não era como a lavagem fervente. Era um frio que queimava por dentro. Os vapores de mercúrio preencheram instantaneamente meus pulmões. Senti como meu sangue engrossava, transformando-se em chumbo. Meus músculos falharam. Caí de joelhos, e a poça prateada continuava a se espalhar ao meu redor, refletindo meu próprio rosto distorcido. Olhei para Jon Snow, mas vi apenas o seu sorriso gélido através da névoa de vapores pesados. Morri lá, na mina sob o Castelo Vermelho, coberto por metal líquido, enganado por aquele que eu mais amava. Meu corpo ainda jaz lá, tornando-se parte do tesouro de prata que nunca existiu. —
Jeor Mormont calou-se. Ele percorreu o salão com o olhar lentamente. Tyrion Lannister deixou cair a taça, e o vinho escorreu como uma poça vermelha pela mesa, lembrando sangue. Jaime empalideceu. Cersei agarrou a borda da mesa com tal força que as juntas dos dedos ficaram brancas. Os lordes entreolharam-se. O sentido das últimas palavras começou a ser compreendido por eles. «Eu morri lá…» Eles olharam para a cadeira onde Jeor Mormont acabara de sentar-se. A cadeira estava vazia. Não havia manto, nem homem, nem cheiro de vinho. Apenas um leve frio e um odor metálico quase imperceptível de mercúrio pairava no ar. Jeor Mormont não estava entre os vivos há muito tempo, sua história sobre a morte era verdade. Mas como todos eles acabaram de vê-lo e ouvi-lo?! Ramsay Bolton, cujo rosto se contorceu numa mistura de horror e êxtase, virou lentamente a cabeça para Theon, que ainda estava sentado no chão, abraçando sua tigela de cachorro vazia de macarrão.
— Ei… Massajoy… —
sussurrou Ramsay, e sua voz falhou.
— Você… você o viu? Você ouviu o Urso? —
Ele realmente esteve aqui ou todos nós enlouquecemos? Theon levantou a cabeça. Seu rosto estava molhado de lágrimas, o ranho borbulhava no nariz e os «ouriços carecas» na testa pulsavam, fazendo-o parecer um inseto alienígena. Ele olhou para o lugar vazio, depois para Ramsay. Em seus olhos não havia um pingo de compreensão — apenas um deserto infinito e calcinado de dor.
— Eu… —
Theon soluçou, e uma lágrima grossa caiu sobre sua mão suja.
— Eu sou o Fedor… E os ursos rosnam assim “grrrrrr”. Eles não existem no castelo, mestre.. —
Ele cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar em voz alta, sacudindo-se em prantos que ecoavam pelo salão subitamente vazio e frio de Forte do Pavor.
— Eu sou o Fedor! Eu sou o Fedor! —
gritava ele, sufocando em lágrimas, incapaz de suportar nem o peso das histórias alheias, nem o vazio de sua própria alma. Os lordes começaram a levantar-se apressadamente da mesa, derrubando cadeiras. A vergonha de Theon por hoje estava em segundo plano — agora eles eram possuídos por um terror primordial diante do fantasma que acabara de lhes contar sobre lavagens, pássaros podres e a morte prateada. Ramsay Bolton, vendo que desta vez o Gêiser não apenas se envergonhara, mas fora testemunha involuntária de uma revelação do além, franziu a testa resolutamente. A atmosfera no salão estava sombria demais, solene demais para Forte do Pavor. O fantasma de Mormont deixara para trás um rastro de dignidade gélida, e Ramsay sentia que seu «animal de estimação» corria o risco de se contaminar com aquela grandeza através das lágrimas.
— Ora, basta, Massajoy! —
berrou Ramsay, levantando-se da cadeira e arremessando a taça vazia com um estrondo.
— Chega de espalhar umidade! O Velho Urso foi para a sua mina, e você ainda está aqui. E já que você ouviu com tanta atenção os delírios dele, decidi recompensá-lo. Você é um príncipe, não é, Theon? Herdeiro das Ilhas de Ferro? E não fica bem a um príncipe rastejar na lama sem uma montaria fiel! —
Ramsay aproximou-se de Theon e, com uma reverência fingida, levantou-o de joelhos. Theon, cujos «ouriços carecas» na testa ainda brilhavam úmidos de lágrimas, olhou para o mestre com desconfiança.
— Agora você partirá para o grande mercado de cavalos perto de Porto Branco, —
proclamou Ramsay, piscando para os convidados.
— Eu lhe dou ouro… ou melhor, prata, digna do seu status atual. Você comprará para si o melhor cavalo de Westeros! —
Com estas palavras, Ramsay colocou na palma trêmula de Theon três veados de prata tortos e enegrecidos — uma quantia com a qual, num dia de feira, não se podia comprar nem um rato morto, quanto mais o casco de um garanhão.
— Mas há uma condição, meu cavaleiro, —
Ramsay mostrou os dentes.
— Você irá para lá a pé, mas não como um miserável. Você irá como um nobre senhor num torneio! Você deve imaginar que sob você há um corcel de guerra invisível, e você mesmo é o campeão do Norte. Você irá «galopando» pela estrada, levantando bem alto os joelhos e emitindo sons de cascos com a boca. E que os deuses não permitam que alguém no mercado não o reconheça como um grande comprador! —
Ramsay ordenou aos servos que trouxessem a «armadura». Na cabeça de Theon colocaram um escorredor de macarrão enferrujado, em vez de capa jogaram-lhe uma manta de cavalo furada, cheirando a urina equina, e nas mãos deram-lhe um pedaço de vassoura — sua «lança de cavaleiro».
— Vá, Sor Massajoy! — comandou Ramsay sob a gargalhada renovada dos Lordes. — Galope atrás do seu sonho!
Theon, cuja mente capitulara definitivamente diante da loucura, subitamente empertigou as costas. Sob o olhar hipnótico de Ramsay, ele realmente acreditou que era um cavaleiro. Pressionou a «lança» contra a lateral do corpo, levantou as bordas da manta e começou a pular ridiculamente pelo salão, batendo os calcanhares descalços nas pedras e gritando: «Tuc-tuc! Cuidado! O grande lorde vai buscar seu cavalo!». Todo o caminho até o mercado Theon percorreu com essa imagem. Galopava pela beira da estrada, obrigando camponeses ocasionais a se benzerem e pularem na vala. Quando ele, finalmente, irrompeu na praça do mercado de Porto Branco, sua aparência era monumental em sua miséria: o escorredor escorregara sobre um olho, cobrindo um dos «ouriços carecas», a manta arrastava-se pelo esterco e ele próprio respirava com dificuldade, continuando a imitar relinchos.