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Ainda te lembras de quando nos conhecemos? Foi no dia 24 de dezembro, no Natal, quando vieste dentro de uma caixa de cartão, embrulhada com um papel colorido. Naquele tempo, eu tinha 8 anos e tu eras uma adorável bola de pêlo, com vários tons e orelhas pontiagudas. Até hoje, não sei bem por que te chamei de Kuro. Pensei nesse momento enquanto esperava na sala de espera do veterinário, rodeado por outras pessoas. – Sr. Hiro? — chamou uma das auxiliares. – Sim — respondi, levantando-me. Ela conduziu-me até ao consultório da doutora, que me anunciou a chegada. Eu sempre soube que este dia chegaria, mais cedo ou mais tarde. Kuro, com 16 anos, tinha começado a adoecer frequentemente nas últimas três semanas, o que não era normal. No mesmo dia em que o levei ao veterinário, a doutora internou-o para estudar melhor o seu caso, mas, desde então, ele só piorou. Entrei no consultório e sentei-me como a doutora pediu. Ela explicou-me que o estado de Kuro era irreversível devido à idade avançada. O vírus tinha-se espalhado rapidamente, afetando o fígado e, principalmente, os rins. Kuro tinha Hepatite Viral Canina, e agora era apenas uma questão de tempo. A doutora sugeriu que o melhor seria talvez optar pela eutanásia, mas a decisão final era minha. Pedi para vê-lo, e ela concordou. Levou-me ao quarto onde Kuro estava. Ao vê-lo, mal o reconheci, ele estava tão magro e quase não se mexia. Ao perceber a minha presença, abanou a cauda por alguns segundos, com esforço. – Olá, campeão… como estás? — perguntei, acariciando-lhe a cabeça. A expressão dele transmitia tranquilidade, o que me confortou, apesar da dor que eu sentia. Naquele momento, decidi seguir a sugestão da doutora. Ela entrou no quarto para observá-lo de perto. – Tomou a decisão mais acertada, Sr. Hiro. Acredite. A doutora chamou uma auxiliar para ajudar. Ajoelhei-me ao lado de Kuro, ficando ao nível do seu olhar. – Obrigado por tudo, campeão — disse, beijando-lhe a testa. Agradeci à doutora por todo o cuidado que teve com Kuro. Naquele dia, as lágrimas vieram com frequência. Cada vez que entro em casa, o silêncio parece mais profundo. Muitas vezes olho para os lugares onde costumavas deitar-te, com uma tristeza silenciosa. Às vezes, quase consigo ouvir o som das tuas patinhas no chão de madeira, ou imagino-te no corredor, entrando no meu quarto para te deitares na minha cama. Quando pego na tua moldura, lembro-me daqueles momentos maravilhosos que passámos juntos. As brincadeiras loucas que fazíamos, os desafios que me lançavas, e as vezes em que, doente, eras a minha companhia silenciosa e reconfortante. Agradeço-te por esses grandes momentos, campeão. Tenho a certeza de que agora estás em paz. Da próxima vez que me lembrar de ti, vou sorrir, porque sei que não gostarias de me ver triste, não é? Tenho a certeza absoluta de que um dia nos voltaremos a encontrar, não é, campeão?In memory R.I.P Snoopy: 1995 — 2011